Eleição Incondicional - Soteriologia Reformada

terça-feira, 15 de março de 2011

Eleição Incondicional - Soteriologia Reformada


Renan Almeida

A “Eleição Incondicional” é o segundo ponto daquilo que os teólogos chamam calvinismo, apesar de que tal doutrina não nasce em Calvino, mas flui da Centralidade da Fé na Soberania de Deus e na crença de que a Salvação é única e exclusivamente pela Graça dEle. Afirmar que a Salvação é pela Graça e discordar da “Doutrina da Eleição Incondicional” é incoerente. Como eu poderia definir tal Doutrina? Creio que a Confissão de Fé Batista de 1689 apresenta-se como um bom subsídio para o estudo desse assunto.

“Antes da fundação do mundo e de acordo com o seu eterno e imutável propósito, do seu secreto conselho e do bom prazer da sua vontade – movido por sua só livre graça e sem qualquer outra razão que, na criatura, servisse de condição para movê-lo a agir assim – Deus predestinou para a vida aqueles que escolheu em Cristo para a Glória Eterna”
Uma informação interessante para aqueles que gostam de informações teológicas adicionais é que a Confissão Batista de Fé de 1689 está em completa harmonia com a Confissão de Westminster, Cânones de Dort, Confissão Belga, Confissão de Heindeberg e com os trinta e nove artigos da igreja da Inglaterra, usando-se, inclusive, de termos quase que idênticos.
Se você me questionasse: “Renan, existe algum segredo para compreender a Eleição Incondicional”? eu responderia que sim. Ao se estudar a Doutrina da Graça você deve se perguntar “O que é mais importante para mim? O meu suposto livre-arbítrio ou a Soberania de Deus? Pra mim, Deus é realmente soberano? Eu mereço a salvação? Deus tem a obrigação de me salvar?”. Faça esses questionamentos internamente e então você começará a compreender essa maravilhosa doutrina. O caminho mais prático para se errar na vida cristã é tentar racionalizar demasiadamente a fé.

Agora que já deixei isso claro, ao menos é o que espero... devemos pensar em termos mais claros as implicações da Eleição Incondicional. Você é escolhido por Deus independentemente de seu passado, presente ou futuro. Deus não viu nada em você que o tornasse digno de ser salvo, Ele te salvou porque assim desejou. O apóstolo Paulo escrevendo a Timóteo disse:

“Portanto não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes participa comigo dos sofrimentos do evangelho segundo o poder de Deus, que nos salvou, e chamou com uma santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos,” (II Tm 1:8,9)

Muitos podem tentar argumentar contra textos  claros como esses, mas o que poderiam dizer? Que isso é uma parábola? O texto diz o que diz e não adianta tentarmos solaparmos a verdade contida nesse texto para protegermos uma suposta liberdade que alegamos possuir. O texto deixa claro que a nossa salvação, o nosso chamado não se deu por nossas obras ou méritos e que o chamamento de Deus se deu nos tempos eternos. Antes que houvesse dia, antes que houvesse sol, antes que a terra fosse trazida a existência... Deus já tinha o plano de te criar e te salvar.

Alguns podem dizer: “Renan, você falou certo! Mas note que Deus planejou,mas depende de mim escolher aceitá-lo”. Questiono: “Deus é soberano?” Se Ele é soberano porque dependeria de mim? Se ele depende de que eu diga “SIM”, logo existe a possibilidade de que eu diga “NÃO” e se eu disser “NÃO” (suponhamos que exista essa possibilidade), acabei por frustrar os planos dEle e a Bíblia se torna mentirosa pois a mesma diz que Ele faz tudo conforme Lhe apraz (Sl 115:3).

Alguns pensam que a eleição é uma doutrina dura, que força as pessoas a fazerem o  que não querem. Isso é um mal-entendido. Todo o mundo consegue exatamente o que  quer. Aqueles destinados a irem para o inferno estão satisfeitos ao irem para lá, pois odeiam  a alternativa. Sim, aqueles no inferno estão em contínua agonia. Mas o que eles odeiam ainda mais é se submeter à adoração do Deus triúno. Como Edwin Palmer diz: “O último lugar que eles querem estar é no céu. Eles não podem engolir a idéia de se arrepender dos pecados e amar a Deus e aos outros mais que a si mesmos. Eles não querem estar no inferno, mas quando sabem que a alternativa ao inferno é ir para o céu com um coração puro, desejarão permanecer no inferno. Assim, é verdade que cada um consegue o que quer: os cristãos estão satisfeitos por estarem com Deus, e os habitantes do inferno estão satisfeitos por não estarem com Deus”. 

Paralelamente, se existe algo chamado Eleição (e sabemos que existe por intermédio do testemunho das Sagradas Escrituras) devemos concluir que deva existir a Reprovação. Àqueles que não estão predestinados à salvação, jamais irão se converter e consequentemente serão lançados no inferno. Há injustiça da parte de Deus nisso? Em hipótese alguma. O apóstolo Paulo antevendo esse questionamento disse:

“Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum.
Porque diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia, e terei compaixão de quem me aprouver ter compaixão.” (Rm 9:14,15)

O papel de Deus na reprovação é passivo.  O ímpio é ignorado ou deixado de lado. Eles são condenados por sua incredulidade. Jesus disse: “… o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo. 3:18). Mas a redenção de Deus dos eleitos é um papel ativo, ao estender a sua misericórdia àqueles que foram ordenados para a vida eterna. Jesus disse: “Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele” (Jo. 3:17). Deus enviou seu Filho para salvar pecadores. O  fato  de  Deus  deixar  de  lado  alguns  pecadores,  não  lhes  concedendo  sua misericórdia,  é  um  justo  julgamento  pelo  pecado  deles.  Como  Pedro  diz:  “São  estes aqueles que não crêem, os que tropeçam na palavra, sendo desobedientes, para o que também foram postos” (1Pe. 2:8). Aqui novamente vemos a responsabilidade humana e um cumprimento do propósito eterno de Deus.  

A Eleição transforma Deus em um injusto?

Devo admitir que esse é o argumento arminiano mais forte e é um questionamento que surge naturalmente na mente dos homens ao ouvir que Deus escolhe uns e rejeita a outros. Eu muitas vezes usei esse argumento, mas hoje vejo o quão frágil é esse argumento. O grande problema dessa argumentação é que utilizá-lo revela que, inconscientemente, cremos que merecemos a salvação. Você discorda de mim? Eu chamaria alguém de injusto quando esse alguém tem a obrigação de fazer algo de uma forma e age de outra, mas qual a obrigação que Deus tem de salvar os homens? Será que Deus por salvar alguns, tem obrigação de salvar a todos? Por que Ele seria obrigado a tal coisa?

Se você estiver andando nas ruas da sua cidade e ver em uma calçada 10 mendigos. Você olha para eles e todos estão sujos, mal vestidos, fedorentos e com fome. Algum deles merece algo de você? Claro que não. Eles não fizeram nada para que fossem merecedores de seu amor. Se você pegar 3 desses mendigos e levá-los para casa, você estaria sendo injusto com os outros 7? Claro que não! Eles não mereciam! Você manifestou um favor imerecido (graça) por aqueles 3 mendigos.

Agora pensemos que a Eleição não existisse! Você gostaria dessa idéia? Então sinto muito, mas preciso informá-lo (a) de que todos nós seríamos lançados no inferno “sem fazer curva”. Se tivéssemos livre-arbítrio como muitos supõem e não existisse a Eleição, todos usariam seu livre-arbítrio para rejeitar a salvação. Cristo nos diria: “Desejam a salvação? Me reconheçam como Senhor” e nós o negaríamos porque odiamos tudo o que é contrário ao pecado. Discorda de mim? Então analise Ap 16:9 que mostra que apesar de os homens reconhecerem que Deus podia livrá-los da dor e das pragas, ainda assim não usaram seu suposto poder de escolha para darem glória a Deus, antes preferiram blasfemar contra o Santo Nome do Senhor.
Todos os homens merecem o inferno. Não merecemos a salvação. Essa é a mais pura verdade. O contraste entre o que merecemos e o que temos em Cristo é visto no versículo muito amado de Romanos 6:23: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor”. Paulo argumenta que é totalmente prerrogativa de Deus escolher quem ele salvará: Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum! Pois ele  diz    a  Moisés:  “Terei  misericórdia  de  quem  me  aprouver  ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão” (Rm. 9:14-15). Portanto, a justiça de Deus não seria maculada se ele tivesse escolhido não salvar ninguém ou salvar todo o mundo. Ninguém pode presumir conhecer a mente do Senhor. Quando Paulo irrompe numa doxologia em Romanos 11, ele diz,

“Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor?” (Rm. 11:33b-34a).
 
Ou como Isaías diz,
“Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos”, diz o SENHOR” (Is. 55:8).

Se culpamos a Deus de injustiça, a réplica de Paulo é encontrada em Romanos 9.
“Quem és tu, ó homem, para discutires  com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: ‘Por que me fizeste assim?’ Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?” (Rm. 9:20-21).

Conclusão

Alegro-me na Doutrina da Graça de Deus.Alegra-me o fato de saber que nada que eu faça ou deixe de fazer fará com que Deus me ame mais ou menos. Isso não torna o cristão “folgado” como muitos alegam, mas torna o cristão mais grato. A visão de um Deus Santo que ama pecadores e os escolhe não pelo que os mesmos são, mas sim pela vontade dEle é constrangedora e ao mesmo tempo transmite a paz que excede todo o entendimento. É glorioso imaginar que não preciso ter medo de perder a salvação (isso não me permite viver em pecado... o verdadeiro Eleito odeia o pecado com todas suas forças), pois o Santo Deus me guiará em segurança até o grande dia, no qual receberei de suas Santas mãos o meu galardão.

Soli Deo Gloria.

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