sexta-feira, 6 de abril de 2012

Um sermão de Thomas Cranmer (2)


Da salvação da humanidade, somente por Cristo,
Nosso Salvador, do pecado e da morte eterna (2)

Thomas Cranmer, Arcebispo da Cantuária

HÃO escutado que todos os homens devem buscar sua justificação e como esta justificação vem aos homens mediante a morte e os méritos de Cristo. Também escutaram que três coisas são necessárias para obter nossa justificação, a saber: a misericórdia de Deus, a justiça de Cristo e uma fé verdadeira e viva, da qual emanam boas obras. Também declarou-se antes e em geral que nenhum homem pode ser justificado pelas suas próprias boas obras, porque nenhum homem pode cumprir a lei segundo as plenas exigências da mesma. Em sua Epístola aos Gálatas, São Paulo declarou o mesmo assim dizendo: "Se houvesse alguma lei dada que pudesse justificar, em verdade a justiça deveria ser pela lei". E de novo diz, “Se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão”. E de novo diz, “De Cristo vos desligastes, vós que procurais justificar-vos na lei; da graça tendes caído”. E além do mais assim escreveu aos Efésios: Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. E em resumo, o centro de toda argumentação de Paulo é esta: “Se a justiça vem das obras, então vem da graça; e se vem da graça, não vem das obras”. A este ponto levam todos os Profetas, como disse São Pedro no décimo capítulo de Hebreus. Disse São Pedro que todos os profetas são testemunhas de Cristo, que pelo seu Nome todos os que creem nele receberam a remissão de seus pecados...

Esta fé que ensinam as Sagradas Escrituras é a rocha firme e o fundamento da religião Cristã: esta doutrina foi aprovada por todos os velhos e antigos autores da Igreja de Cristo, esta doutrina promove e estabelece a verdadeira glória de Cristo e destrói a vanglória do homem; aquele que nega isso não pode considerar-se como um verdadeiro Cristão, nem como testemunha da glória de Cristo, senão como adversário de Cristo e seu Evangelho e como testemunho da vanglória dos homens.

E embora esta doutrina não seja tão verdadeira, como é realmente verdadeira, que somos justificados livremente sem qualquer mérito por nossas boas obras (como afirma São Paulo) e livremente por esta fé viva e perfeita em Cristo unicamente (como os velhos autores falavam dela); ademais deve entender-se verdadeiramente e ser declarada com clareza, para que homens carnais não aproveitem indevidamente a ocasião para viver carnalmente segundo o desejo e a vontade deste mundo, da carne e do diabo. E para que nenhum homem se equivoque por torcer esta doutrina, declarei clara e brevemente a correta interpretação da mesma para que nenhum homem pense justamente que pode aproveitar qualquer ocasião de liberdade carnal para seguir os desejos da carne, o que qualquer tipo de pecado pode cometer-se ao levar-se um estilo de vida ímpio.

Primeiro devem entender que nossa justificação por Cristo não é uma só coisa, mas sim o ofício de Deus para com o homem e o ofício do homem para com Deus. A justificação não é obra de homem mas sim de Deus. Porque o homem não pode justificar-se por suas próprias obras, nem em parte nem no todo; por que tal coisa seria a maior arrogância e presunção que o Anticristo poderia usar contra Deus, para afirmar que um homem poderia por suas próprias obras quitar e expiar seus próprios pecados e assim ser justificado. Contudo a justificação é um ofício de Deus unicamente; e não é algo que lhe entregamos senão que recebemos dele; não que lhe damos senão que tomamos por ele; por sua livre misericórdia e somente pelos méritos de seu Filho mais amado, nosso único Salvador e Justificador, Jesus Cristo. Esta é a verdadeira compreensão desta doutrina. Que sejamos justificados pela fé sem obras, ou que sejamos justificados pela fé em Cristo unicamente, não é pelo nosso próprio ato, crer em Cristo, ou esta nossa fé em Cristo, que está dentro de nós, nos justifica e conquista nossa justificação, porque tal seria considerar-nos justificados por algum ato ou virtude dentro de nós mesmos. Porém a verdadeira compreensão e significado da mesma é que, embora escutemos a Palavra de Deus e creiamos nela, tenhamos fé, esperança, caridade, arrependimento,  temor e temor a Deus dentro de nós e nunca fazermos boas obras, mesmo assim devemos renunciar o mérito de nossas mencionadas virtudes de fé, esperança, caridade, e todas nossas outras virtudes e obras que tenhamos feito, venhamos a fazer ou podemos fazer como coisas demasiado débeis, insuficientes e imperfeitas para merecer a remissão de nossos pecados e nossa justificação; e portanto devemos confiar somente na misericórdia de Deus e naquele sacrifício que nosso Sumo Sacerdote e Salvador Cristo Jesus, Filho de Deus, uma vez ofereceu por nós na cruz, para assim obter a graça de Deus, a remissão de nosso pecado original no batismo, e de todos os pecados reais cometidos por nós após o batismo, se nos arrependermos verdadeiramente e nos voltarmos outra vez a ele sem fingimento. Assim como São João Batista, embora não tenha havido nenhum homem de Deus mais virtuoso, no que concerne o perdão dos pecados, reuniu os seus seguidores e lhes dirigiu Cristo dizendo: "Vejam, ali está o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo", mesmo a fé viva sendo uma grande virtude diante de Deus, tão somente nos une e nos remete ou dirige a Cristo, porque somente nele teremos a remissão de nossos pecados, ou, como também pode dizer-se, justificação. De maneira que a nossa fé em Cristo, como dissera, nos diz isso: Não sou eu quem paga seus pecados, senão somente Cristo; e somente a ele te envio para tal propósito, esquecendo assim mesmo todas as tuas boas obras, palavras, pensamentos e obras e somente colocando tua confiança em Cristo.


Thomas Cranmer (1489-1556) foi Arcebispo de Cantuária durante os reinados de Henrique XVIII e Eduardo VI (1533-1553), sendo o responsável pela reforma da Igreja da Inglaterra. É pai idealizador da Tradição Anglicana Reformada expressa no Livro de Oração Comum de 1662. Foi autor de vários textos, incluindo as duas primeiras edições do Livro de Oração Comum.


Tradução: Fabio Farias


* N.T - As palavras em itálico e sem aspas, não pertencem ao original, foram adicionadas para melhor entendimento ou fluência.

** N.T - Textos bíblicos retirados da Almeida Corrigida Fiel - 1994.

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