Um Ataque ao Cessacionismo

Fábio Farias*


Há quem diga que a "Fé Reformada" e a "Fé Pentecostal" são produtos de duas Reformas diferentes, que não há a menor possibilidade de haver algo como um "pentecostal reformado". Teologicamente falando não há mesmo, pois a doutrina pentecostal discorda em muitos pontos da doutrina reformada: são arminianos, dispensacionalistas, pré-milenistas, crêem no batismo no Espírito Santo como um evento distinto e posterior à conversão (se bem que alguns reformados criam assim; como, por exemplo, Rev. A.G Simonton e Dr. Martin Lloyd Jones - alguém dúvida da fé reformada deles?), e crêem que o dom de línguas estáticas é a evidência automática desse batismo.

Isso quer dizer necessariamente que uma pessoa crente na predestinação e no ensino dos Reformadores, mas que prática os dons espirituais, não é de fato um reformado? É impossível, no que tange a prática, existir algo como um "pentecostal reformado", isto é, um reformado não-cessacionista? Minha resposta a essas perguntas, segundo creio tendo como base as Sagradas Letras, é um sonoro: Não!
 
1. O Puritanismo redunda no Não-Cessacionismo

Aqueles que desejam reviver o puritanismo (diga-se, os "neo-puritanos") são aguerridamente cessacionistas. Segundo os mesmos, o único meio de Graça para a Igreja dos presentes dias é a Bíblia, pois tendo cessado a escrita do Novo Testamento (em cerca de 90 d.C, com o Apocalipse de João) cessou-se também os chamados dons extraordinários.

É certo que em grande parte os puritanos também tinham isso como verdadeiro. Seria o cúmulo dizer que os puritanos eram "pentecostais" ou mesmo que praticavam os dons em abundância (apesar de haver algumas histórias muito interessantes). Acredite, eles não eram "pentecostais" e eu também não sou. Porém mesmo a revelia destes, com santo temor, mas pondo antes da Tradição a Escritura, tomando assim posse do elemento essencial do puritanismo, creio que o puritanismo lança bases doutrinárias e eclesiásticas necessárias para a manifestação dos dons espirituais, sendo estes dons uma consequência natural do ideal puritano.

O puritano tinha como grande missão glorificar à Deus, e sabia que a única forma de cumprir essa missão era cumprir todo o conselho de Deus (At 20.27) sem desviar-se para direita nem para a esquerda (Dt 28.14). Baseando-se nas vidas de homens como Neemias, Esdras e Paulo, os puritanos desejavam rejeitar tudo que fosse além  dos mandamentos de Deus.

Os puritanos realmente temiam praticar algo em suas casas e igrejas que fosse contrário a vontade de Deus, ou mesmo praticar algo que Deus não havia ordenado. Para os puritanos, impor no culto público elementos que não fossem claramente instituídos por Deus na Escritura, era cometer o mesmo erro de Israel ao instituir um rei (I Sm 18.5-9) ou construir um templo (II Sm 7). Deus, em Sua infinita misericórdia, assimilou esses erros do povo de Israel em seu plano eterno de salvação; porém a longo prazo esses erros levaram Israel a apostasia ao declínio, como o próprio Deus decretara. Os puritanos sabiam disso e não desejavam cometer o mesmo erro.

Considerando essa realidade os puritanos pregavam que a Igreja não deveria praticar no culto público ou na vida diária nada que não fosse ordenado na Bíblia. E isso, logicamente nos leva a outra conclusão: a Igreja deve praticar no culto público e na vida diária tudo o que a Bíblia ordena. 
 
O que a Bíblia ordena sobre dons espirituais? "Portanto, procurai com zelo os melhores dons; e eu vos mostrarei um caminho mais excelente (I Co 12.31)" e também diz: "Segui o amor, e procurai com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar (I Co 14.1)" A Escritura afirma que Jesus Cristo "subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens (Ef 4.8)" e também afirma que "Testificando também Deus com eles, por sinais, e milagres, e várias maravilhas e dons do Espírito Santo, distribuídos por sua vontade. (Hb 2.4)" E o que os puritanos alegam? Que a Igreja deve praticar tudo o que as Escrituras ordenam a ela.

Logicamente, isso deveria incluir a busca sincera pelos dons espirituais.

2. O Puritanismo contradiz o Cessacionismo

Ainda em santo temor, mas honestamente buscando por em prática o ponto fundamental do puritanismo, o Sola Scriptura em detrimento da Tradição que a contradiz, afirmo que o puritanismo dá as bases necessárias para a prática dos dons, e que os argumentos cessacionistas contradizem a forma como os puritanos diziam interpretar a Bíblia.

Em Marcos 16.15-18 está escrito: "E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. E estes sinais seguirão aos que crerem: as mãos sobre os enfermos, e os curarão. "Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão." A posição reformada tradicional é que o "ide" é para todo os cristãos. Porém no versículo posterior também diz que estes sinais seguirão aos que crêem, isto é, seguiram a todos os cristãos! Como os cessacionistas pregam um versículo e ignoram o que vem imediatamente em seguida? Também devemos nos questionar: como os cessacionistas podem invocar I Co 14.40: "faça-se tudo com ordem e decência"; e ao mesmo tempo ignorar 1 Co 14.12: "Assim também vós, como desejais dons espirituais, procurai abundar neles, para edificação da igreja."?

Sob qual princípio interpretativo os cessacionistas aceitam um versículo e não o outro como algo válido para a Igreja de hoje? Ao aceitar a eficácia atual de certos versículos e ao negar a eficácia atual de tantos outros, os cessacionistas assumem que há algo acima das Escrituras - um elemento que pode arbitrar o que devemos ou não reconhecer como mandamento de Deus para nós. Eles partem da suposta escassez, ou da total inexistência, de dons carismáticos no meio ortodoxo da Igreja para tentar justificar nas Escrituras o cessacionismo. Utilizam a História da Igreja como medida de fé, em detrimento das Escrituras.

Essa forma de interpretar as Escrituras contradiz claramente a proposta puritana de que a clara declaração da Escritura sobre qualquer assunto é a medida pela qual todas as coisas devem ser medidas, incluindo a História da Igreja e a sua Tradição.

Pensando nesses termos o cessacionismo não me parece tão "Sola Scriptura" quanto pretende ser.

Conclusão

Diante desses fatos e dos mandamentos que as Escrituras expõem diante de mim, nada mais posso fazer do que buscar os dons espirituais em obediência a Deus. Creio piamente que o desejo de seguir os passos dos puritanos, em especial na sua piedade e no seu temor a Deus e aos Seus designos, passa necessariamente pela busca dos dons espirituais. Não preciso apelar ao pentecostalismo, ao neopentecostalismo, ou a qualquer outro vento de doutrina para ter uma experiência sobrenatural; o calvinismo já me dá todas as convicções e recomendações doutrinárias para isso.

Portanto peço a você querido irmão:

Ore em busca dos dons espirituais.



* Republicação do texto "Em defesa do Pentecostalismo Reformado", publicado há alguns meses. Fiz breves modificações para não confundir os leitores com o termo "pentecostal reformado", mesmo que eu não tenha nenhum problema em usá-lo, e adicionei algumas informações pontuais.


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4 comentários:

  1. Excelente postagem. Faço parte de uma denominação pentecostal mas simpatizo com a teologia reformada, não vendo qualquer problema em relacionar as doutrinas da graça com a busca sincera pelos dons espirituais prometidos nas Santas Escrituras nas quais baseio minha fé e prática. Reconheço, porém, que os excessos emocionais de alguns e as fraudes praticadas por outros minam a credibilidade da crença na contemporaneidade dos dons mas exercitar o discernimento é um imperativo bíblico, especialmente para observar a arvóre pelos seus frutos. Graça e Paz!

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  2. A reforma tem suas bases na afirmação da fé reformada conhecida como os cinco "solas" da Reforma Protestante. Uma dessas afirmações é o Sola Scriptura, onde é dito que somente a Escritura Sagrada deve servir como regra de fé e prática para o povo de Deus. Portanto, sendo reformados, é incoerente crermos que dons como o de outras línguas e profecia (aspecto preditivo)permanecem até os dias de hoje como o eram na Era Apóstólica, na igreja iniciante do primeiro século, uma vez que o Cânon foi fechado, e temos a Palavra para vivermos por ela. Esses dons eram "revelatórios" se podemos assim dizer,e serviam ao povo de Deus enquanto a Escritura ainda não havia sido definida em sua totalidade. Ademais esses dons foram dados aos apóstolos, profetas e evangelistas como selo para autenticação do seu ministério e esses ofícios que não mais existem em nossos dias tendo seus dons cessado. Sendo assim é possível crer na soberania e plenipotência de Deus na Eleição/ Predestinação e não ser Cessacionista, mas um não-cessacionista perderá sua identidade de Reformado.Tais dons, ainda que seus conteúdos sejam da Escritura, são imcompatíveis com o Sola Scrptura da Reforma. No amor de Cristo!

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  3. Sola Scriptura!

    Vou ser bem sincero como fui em toda a minha vida (rs!), chega ser até estranho ter o nome do Blog PELAS ESCRITURAS, e encontrar uma postagem dessa. É hilário na verdade!

    Deve ter no nome do Blog três pontinhos: Pelas Escrituras... que eu não estou vendo, ou será que estou cego?

    Eu até poderia responder tal coisa, foram 18 anos dentro de uma seita pentecostal, tenho muito o que falar sobre, mas isso daria debate, e já ando cansado deles, não que eu esteja velho, pois só tenho 34 anos (rs!). Mas é que não leva a lugar nenhum.

    Esse misto de teologia reformada com pentecostalismo é puro sonho. O que mais me chama atenção é o texto de Marcos 16, se o método gramático-histórico entrar nessa citação, mal feita do texto por sinal, não ficará nada desse estranho postulado que os sinais devem seguir todos os crentes que creem.

    Até mesmo uma leitura simples do texto, sem muito trabalho teologico, por exemplo, encontraremos no verso 20 a nossa resposta, mas, se não formos submissos as Escritura, "então deixa está tudo bem com o argumento", e não importa o que ela diz.

    Por fim, cita as sábias palavras do filósofo: "Eu não concordo com uma palavra do que você diz, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las".

    Um abraço!

    Sola Scriptura!

    Pelas Escrituras Somente, sem os pontinhos, por favor!

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  4. Respondendo ao comentário,

    o filósofo que você cita ao final do texto é Voltaire que mais mal tem causado à humanidade do que bem, haja vista que seu pensamento tem sido a fundamentação da "realidade alternativa" ou "uma verdade particular". A definição dele não prevê uma verdade pela qual se valha a pena lutar e se não há verdade pela qual se deva lutar, então todo e qualquer pronunciamento é inútil. Tendo em vista que você o citou ao final da postagem, automaticamente você fez crer que seu posicionamento anterior é inútil.

    O Título "Pelas Escrituras" é adequado, ainda que você não goste. Há alguns blogs cessacionistas na rede que podem ser acessados e que provavelmente você considere mais bíblicos.

    O que o Fabio Farias fez foi estabelecer as premissas de dois movimentos básicos e demonstrar as consequências das premissas. Caso não saiba, muitos nomes reformados da atualidade são carismáticos... os cessacionistas não demonstraram estar com a verdade até o momento e se eles estão com a verdade, por óbvio os continuístas estão errados, então necessário se fará definir o tipo de erro... se o erro é sectário, então se condena muitas gerações de continuístas ao inferno e se não se considera como sectários, então você está a discutir uma diásfora e isso sim seria hilário.

    Quando se vai para o verso 20, se percebe que o Espírito cooperava confirmando a palavra com os sinais. Ora, esse entendimento tem sido muito claro na mente de Reformados continuístas, haja vista que entendem que os dons se manifestam por influência, por força da propagação do evangelho de modo que estes tem o condão de confirmar toda a pregação. O continuísta não foge do Sola Scriptura, antes pelo contrário, ele reafirma até o último instante e em todas as consequências que daí se depreendam.

    Renan A. Moreira

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