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sexta-feira, 4 de março de 2016

[Livro] Sob os céus da Escócia

  Um comentário preliminar

 
[Renan Moreira] Inicialmente, penso ser pertinente situar o leitor acerca da obra comentada no texto que se segue. O livro "Sob os Céus da Escócia" é uma proposta inovadora em solo nacional, uma vez que objetiva apontar a manifestação de eventos miraculosos entre cristãos de linha reformada do passado, inclusive entre os divines de Westminster.

A obra é precipuamente revestida de um caráter histórico, ou seja, primeiramente os fatos são narrados e somente a partir disso são traçados alguns comentários teológicos. Assim, frise-se, não deve ser a obra confundida com um tratado continuísta, mas sim vista como aquilo que é, repise-se, uma série de narrativas de fatos miraculosos em um passado não tão distante.

A obra se faz relevante na medida em que demonstra que os dons espirituais se manifestaram mesmo entre Reformados que criam na cessação dos dons, demonstrando que Deus não está preso a crenças particulares. Um ponto adicional é que os dons são analisados desvinculados do clássico pensamento pentecostal, dialogando com a própria Confissão de Fé de Westminster.

Outrossim, é importante consignar que este texto é uma resposta do Autor ao Reverendo Allan Renê que escreveu um texto com uma crítica negativa à obra. Por questões de honestidade intelectual, a crítica formulada pode ser lida aqui.

Tenho o livro e percebi que a obra tem sido julgada a partir de pressuposições falhas e sem o conhecimento específico, muitas vezes, do seu inteiro teor, o que implicaria na direta violação do 9º mandamento. Como exercício de amadurecimento, seria adequado que não fossemos apressados em julgar a obra como alguns têm feito. Por óbvio todo trabalho está sujeito a críticas, no entanto não se deve acusar o Autor por aquilo que ele não disse.

Por fim,  a publicação da resposta do Escritor do livro não implica em concordância com todo e qualquer posicionamento que este tenha ou venha a ter, mas sim com os aspectos que são inerentes ao livro. Desta forma, o Instituto Veritas Reformata reafirma sua posição reformada e continuísta, para honra e glória do Eterno Deus.

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 Uma resposta ao Alexandrino
Uma réplica em defesa de "Sob os Céus da Escócia"

Renato Cunha

O tão anunciado artigo sobre o livro “Sob os céus da Escócia (2015)” da lavra do Rev. Alan Renê de Lima foi finalmente publicado. Em primeiro lugar, analisando particularmente seu conteúdo, tive a impressão (isso só percebe quem conhece o livro) que o articulista leu a obra, mas não entendeu sua proposta. Além do mais, que ele não tenha gostado do livro isso restou claramente evidenciado e é até um direito que lhe assiste. Por outro lado, e com máxima distinção, igualmente evidente que não o entendeu. Todavia, como ele se esforça para descredibilizar o livro, sobretudo no tocante às fontes, julgo ser interessante logo de início tecer algumas considerações a respeito. Portanto, afirmações equivocadas de menor repercussão, como minha qualificação como ministro da Igreja Episcopal Carismática, serão deixadas de lado.

O articulista parece estranhar não apenas as fontes, mas igualmente os eventos envolvendo profecia preditiva, curas e ressureições informados no livro. Com efeito, todos os relatos carreados em Sob os céus da Escócia, são registros históricos extraídos de fontes reformadas e calvinistas, escritas por autores igualmente reformados e calvinistas. Gente séria que angariou reputação ilibadíssima, tais como John Howie, Theodore Beza, Robert Fleming, London Gardner, Patrick Hamilton, Peter Hume Brown, Patryck Walker, Alexander Smellie, et al. Todavia o articulista manifesta seu inconformismo talvez porque tais relatos confrontem sua posição teológica. As fontes das quais me utilizo, foram utilizadas pelo Dr. Lloyd-Jones em vários escritos seus, pelo Dr. Ian Murray em The Puritan Hope (Banner of Truth, 1971), bem como por outros tantos escritores reformados. O uso de tais relatos não ficou restrito aos séculos 16, 17 e 18. Em um de seus livros, Lloyd-Jones diz que


houve um homem chamado John Welsh que era tão reformado e tão calvinista como seu sogro, John Knox. Foi dito dele - e há boa prova disso num livro escrito por um escritor igualmente reformado e calvinista - que, quando ele residia no sul da França, foi usado para ressuscitar uma mulher dentre os mortos. [...] Ou considerando o dom de profecia, façamos uso da ilustração. Tome de novo o caso de John Welsh, ou de outro grande ministro da Escócia, Alexandre Peden. Se vocês lerem as biografias desses homens, verão que eles puderam proferir profecias de eventos que aconteceriam na Escócia - e que de fato aconteceram.1

A diferença substancial entre os apontamentos do Dr. Lloyd-Jones e os apresentados em Sob os céus da Escócia é que dou nome aos protagonistas, enquanto Jones apenas menciona fatos. Ele fala da ressureição, enquanto eu, informo ao leitor outros dados históricos como detalhes que o envolvem, à semelhança da ressurreição do Lorde Ochiltree pelas mãos de Welsh.2 Dou vida e precisão histórica aos relatos citando profecias nos ministérios de John Welsh, John Knox, George Wishart, Alexander Peden, John Davidson, Richard Cameron, Robert Bruce e John Semple. São indubitavelmente oito respeitáveis ministros. Não há na minha lista nenhum louco ou fanático. Todos homens que amavam a Palavra e pregavam-na com todo ardor. Contudo, profetizaram coisas impressionantes, incluindo detalhes sobre as mortes de determinadas pessoas com aquela precisão cirúrgica que chega a causar assombro.

Além do mais, quando isso foi possível, fiz uso de mais de uma fonte. Tome como exemplo o relato sobre uma ocorrência de profecia com João Calvino registrada por Beza e que foi publicada na biografia do principal reformador em Genebra. Além de apontar o registro de Thomas Boys (1832), informo ao leitor que o mesmo relato se encontra na obra de London Gardner (1744), bem como numa tradução do latim para o inglês publicada em 1844 pela Calvin Translation Society. Foi a partir desse tipo de obra altamente qualificada que pesquisamos. Contudo, o articulista tem insistido “ad nauseam”, em atacar a credibilidade afirmando categoricamente que o livro é mal pesquisado. O que não é verdade.
O articulista teve dificuldade para localizar fontes e protesta logo de início que a confusão se dá por uma suposta imperícia minha em alocar as referências seguindo rigor das normas científicas:


“Um exemplo disso pode ser percebido no fato de que, ao tratar do alegado continuísmo do escocês George Gillespie nenhuma fonte primária é apresentada, com exceção da menção a dois tratados sobre o dom de profecia no Novo Testamento (p. 65, nota de rodapé nº 15). Não há nenhuma declaração do próprio Gillespie. Há apenas testemunhos oriundos de biografias. Na verdade, as únicas palavras de Gillespie documentadas (p. 64) são tomadas a partir de uma fonte secundária difícil de identificar, dada a maneira equivocada como as notas de rodapé estão organizadas do ponto de vista da metodologia da pesquisa científica.”

Quanto ao protesto acima, explico: As referências de nº 13 e 15, estão jungidas à 33 que na página 58 menciona a obra sobre a qual eu extraio as citações de Gillespie. É verdade de fato que Gillespie faz um apanhado de trabalhos inclusive da Patrística tais como Crisóstomo, mas o faz afirmando claramente que tais testemunhos são tomados como sua posição particular e conclui dizendo que ele próprio testemunhara ocorrências proféticas em seus dias:


“E agora, tendo ocasião, eu tenho que dizer isto, para a glória de Deus, havia na Igreja da Escócia, antes do tempo da nossa primeira Reforma e depois da Reforma, em ambas as ocasiões tais homens extraordinários, superiores a simples pastores e mestres, nivelados aos santos profetas recebendo revelações extraordinárias de Deus e predizendo diversas coisas incomuns e acontecimentos notáveis, as quais aconteciam promovendo grande admiração em todos aqueles que os conheciam em particular.”( p. 64, nota 13).

A propósito, a nota de rodapé de número 15 na página 65, tão somente descreve o título dos ensaios sobre a matéria escritos por Gillespie em Treatise of Miscelany Questions, parte de Works of George Gillespie – One of the Commissioners from Scotland to the Westminster Assembly. Contudo, tais ensaios são mencionados apenas como informação complementar, caso o leitor deseje averiguar e pesquisar mais acuradamente. Eu lançarei mão deles no volume 2. Sobre a obra mencionada acima, a edição que tenho é um reprint do original de 1644 e publicado pela Still Waters em 1991. A propósito, tal citação é extraída da obra adrede anunciada especificamente da pág. 30 de Treatise of Miscelany Questions. Seria esta fonte marginal ou sem credibilidade? O esforço do articulista demonstra-se mais como o desejo de confundir a mente do leitor, do que propriamente auxiliá-lo.

Ele também me acusa de ter afirmado o viés continuísta da CFW, quando em nenhuma das páginas do livro o tenha feito. Nem tampouco afirmei categoricamente que qualquer dos puritanos citados fosse continuísta. Disse que a CFW é um documento redigido com caráter conciliatório. Segundo eu o Dr. Milne entendemos, sua concepção se presta à articulação com fins políticos de pacificação, necessária em um cenário religioso, civil e político bastante conturbado. Neste sentido, não importa o que cada puritano em particular escreveu em defesa de um cessacionismo específico ou de um continuísmo incipiente. Importa é que o enunciado da Confissão apenas se opõe tacitamente quanto à possibilidade de novas revelações com força de mandamentos universais para a Igreja. Este propósito da profecia, sustento no livro, cessou. A que permanece em nossos dias, também sustento no livro, é de caráter extraordinário. Assim sendo, eu não consigo entender que o articulista tenha interpretado como completo revisionismo histórico o simples apontamento através da história da mentalidades quanto ao surgimento do cessacionismo atual como uma excrescência teológica.

Por conseguinte, para quem alega possuir credenciais acadêmicas e treinamento teológico formal, o articulista se autodenuncia quando não compreende evidências muitos claras, que podem ser deduzidas facilmente com uma leitura cuidadosa. Tome o exemplo de quando ele diz que eu não me preocupo em apresentar uma definição sobre qual seja o cessacionismo confrontado na obra, e me acusa de atacar tão somente o sistema quando lhe associo ao ateísmo bem como ao liberalismo de Bultmann. No entanto, eu apenas usei a mesma “régua” utilizada por MacArthur quando este mediu o continuísmo – sem conceitua-lo devidamente, diga-se de passagem. “Com a medida que medirdes, vos medirão também”, disse nosso Senhor. Pois bem, no livro Os Carismáticos (Fiel, 1995), MacArthur a certa altura na página 61 defende a ideia de que a teologia que “possa resultar de nossa experiência não é originária do movimento carismático. Ironicamente, diversos elementos, todos anti-cristãos, têm contribuído para que esse conceito de teologia experimental cresça: Existencialismo, Humanismo e Paganismo.”. Então o continuísmo pode ser acusado injustamente de possuir raízes no paganismo, enquanto o cessacionismo não pode sê-lo por irmanar-se a pressupostos anti-sobrenaturalistas ateístas ou liberais? Se MacArthur pode proceder como demonstrado em julgamento particular, seus opositores podem fazê-lo ao refutar o tipo de cessacionismo que ele abraça. Por outro lado, está tão claro que eu trabalho o cessacionismo mais vulgarmente conhecido e divulgado aqui no Brasil, que julguei desnecessário expor os detalhes das variações próprias do sistema. Ora, se na obra eu dialogo com as teses de cessacionistas tais como Richard Gaffin (p.175ss), Sinclair Ferguson (p. 196), Brian Schwertley (p.184), MacArthur (p. 157ss), Palmer Robertson (p.171), eu realmente necessito esclarecer contra qual cessacionismo me insurjo?

Ele também afirma que eu sustento alegação de que George Gillespie era continuísta. Por outro lado, há uma afirmação muito clara carreada no livro que não foi transcrita no artigo, onde digo:


“Ainda que não seja provada sua aliança com o continuísmo, Gillespie se rendeu aos fatos e os explicou da única forma que poderia tê-los explicado: afirmando que, tendo sido encerrado o cânon bíblico, Deus falou extraordinariamente através de instrumentos humanos, revelando fatos impressionantes que se cumpriram para espanto de toda nação escocesa” (p.65).

Onde estaria minha alegação de que Gillespie era continuísta? O articulista poderia ter transcrito algum trecho do livro com a dita alegação, o que não ocorreu. Não satisfeito, afirma que além de Gillespie, rotulei Calvino, Samuel Rutherford e Jonathan Edwards igualmente como continuístas. Ora, vejamos se procede a afirmação. Na página 57 após informar sobre determinada ocorrência profética com Calvino, digo o que segue: “Neste sentido, é possível admitir a possibilidade de clarividência sem ser necessariamente um carismático.” E prossigo dizendo que “a despeito do que Calvino tenha escrito dentro de uma visão pessoal sobre pontos assumidamente controversos, ou sobre textos em particular, foi posto à prova, conforme demonstrado na narrativa há pouco citada e vista na sua biografia escrita por Beza, qual seja, que ocorrências miraculosas não foram completamente excluídas nem do seu credo nem da sua experiência” (p.58). Na página 94, analisando algumas ocorrências no ministério de George Wishart (1513-1546), assevero: “É preciso que se diga que tais reuniões não eram ajuntamentos em busca novas revelações proféticas. O povo juntava-se para ouvir atentamente a exposição bíblica”. E mais adiante, na página 96, ainda sobre ele, afirmo: “As profecias aqui registradas não eram o norte de seu ministério. Sua função como pregador da Palavra inspirada era a atividade em que se dedicava. Pregar as Escrituras com fidelidade de maneira a instruir o povo em todo desígnio de Deus era seu alicerce ministerial. Mas isto não o impediu de se dedicar à oração e de ser canal da vocalização profética em seu tempo.” Já no capítulo onde analiso as profecias de John Knox (1505-1572), na página 106, registro minha impressão acerca de um relato do próprio em que ele afirma que suas esperanças “não repousam em seu poder profético, porque este poder estava sujeito à cessação. Sua confiança está alicerçada na Palavra revelada, ainda que ele seja difusor da anunciação de fatos estranhos e incomuns em seus dias”. E desta forma, sigo no decorrer do livro inteiro fazendo afirmações semelhantes. Assim sendo, quem de fato usa textos de maneira dogmaticamente seletiva? O autor do artigo somente confirma que se utiliza da máxima de Lenin: “Acuse seus adversários daquilo que você faz; chame-os daquilo que você é.”

Quanto à minha interpretação acerca das linhas gerais da Confissão de Fé, bem como da Assembleia que a redigiu, o articulista omite expressões centrais de meu raciocínio e induz o leitor de sua crítica a erro. Ele pinça determinada afirmação particular para dizer que a linha de pesquisa empreendida no livro sugere que os delegados de Westminster combatiam tão somente o romanismo. E omite do contexto uma palavra crucial para o entendimento de meu raciocínio. Na transcrição abaixo, o uso da expressão “por exemplo” por si só explica que meu intento é dizer que a prática do comércio de indulgências promovida pela ICAR, era “um dos” problemas. Apontar “um dos problemas”, não é o mesmo que afirmar haver um “único”:


Os teólogos de Westminster estavam se opondo claramente à tradição romanista das indulgências, por exemplo. Neste sentido, ninguém poderia se apresentar como portador de nova revelação divina referente à salvação humana, tendo em vista o assentamento definitivo de doutrina a respeito. (p.36).

Diferente do afirmado, eu não situo a polêmica como direcionada única e exclusivamente à Igreja de Roma como sugerido. A propósito, mantenho a mesma percepção de Robert Letham e do Derek Thomas ao apontar a disputa como antiga. O conflito com os romanistas e anabatistas é denunciado por mim na página 49 Sob os céus da Escócia, da seguinte forma:


Ele também pronunciou-se contra o erro daqueles aos quais chamava de entusiastas, que relativizavam as Escrituras e a autoridade da Igreja ao apelarem para supostas revelações diretas e especiais de Deus. Não obstante, Calvino os combatia porque, em geral, os ensinos dos entusiastas referentes às reivindicadas manifestações de revelação eram contrários às Escrituras Sagradas. O conteúdo dos ensinos contrariava a Bíblia e, portanto, colocavam em xeque as revelações canônicas. [... Neste caso, para Calvino, seria um erro conceber que Deus entrasse em demanda contraditória contra si próprio. Em ligeira síntese, Calvino combate a pretensa autoridade do entusiasta de seu tempo, sobretudo porque seus ensinos contrariavam a Bíblia e isto era inconcebível para o reformador.

Antes, no entanto, ainda na página 26, trago ao conhecimento do leitor quais seriam tais ensinos e revelações, ao citar, como exemplo, o conteúdo das pregações apocalípticas de Melchor Hoffman.  E quanto aos quakers, não merece prosperar a alegação do articulista de que os conflitos com eles se davam porque entenderam a CFW como cessacionista. A refrega era na busca pela apropriada definição sobre o aspecto ordinário/extraordinário da revelação imediata. O que eles não aceitavam era que as comunicações do Espírito com o espírito do crente fossem confinadas ao status de extraordinárias. Para os quakers, essa comunicação tinha caráter essencialmente ordinário. John Howe teceu considerações importantíssimas a este respeito em The Whole Works of John Howe, estabelecendo distinções entre revelação sobrenatural imediata, mediata, profecia, iluminação, premonições, etc.. Samuel Rutherford definiu a revelação sobrenatural em quatro categorias distintas (p. 69), a saber: 1) Revelação profética; 2) Revelação especial somente ao eleito; 3) Revelação de alguns fatos estranhos a homens piedosos; 4) Revelação falsa e satânica.3 Com isto, buscava-se preservar as revelações canônicas na formação da Escritura, de outras manifestações que se mostravam recorrentes no século 17. Eu avalio as conclusões de Rutherford com muita seriedade porque entendo como o Dr. Poythress que ele foi efetivamente o líder “na orientação teológica dos assuntos mais controvertidos discutidos na Assembleia” (p.68). Sua posição sobre o tema foi acatada, qual seja, que revelação sobrenatural, como evento extraordinário, pode acontecer mesmo com o encerramento do cânon. Além dos dois, William Bridge fez o mesmo especialmente no sermão Scripture light the most sure light. A ideia era separar o joio do trigo, visto que muitos grupos místicos reclamavam possuir revelações diretas da parte de Deus e causavam toda sorte de confusão com vários ensinos contrários à verdade revelada inclusive pelo próprio Cristo. Por isso o uso, por exemplo, do texto de Hebreus 1.1-2 na CFW.

Mas para entender melhor o conflito envolvendo os quakers, é de bom alvitre ouvi-los. Robert Barclay (1648-1690), importante teólogo do movimento, apelou para o texto de que “ninguém conhece o Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho, e aquele a quem o Filho o desejar revelar” (Mt 11.27. KJV). Para quakers proeminentes, esta revelação do Filho se dá “no” e “pelo” Espírito, portanto, o testemunho deste é o único meio pelo qual o cristão pode alcançar o verdadeiro conhecimento de Deus. A cizânia se desenrolava no sentido de que para estes a Escritura não poderia ser única regra de fé e prática, mas o Espírito Santo, revelando-se internamente ao crente. Responder a este padrão subjetivo foi o motriz dos esforços puritanos para assentar a cláusula de que a Bíblia, mediada pelo Espírito era de fato a fonte pela qual todas as demandas deveriam ser julgadas. Este ponto da disputa restou evidente na conhecida Confissão de Fé Quaker The Confession of the Society of Friends, Commonly Called Quakers (1675).

Barclay também sugere que a ferrenha oposição dos quakers em relação aos puritanos girava em torno de uma exacerbada busca por conhecimento acadêmico. Esta busca, segundo ele, não avalizava o verdadeiro conhecimento de Deus nem era garantia de espiritualidade profunda. Defende também que embora a Escritura fosse autoritativa, era um fundamento secundário e subordinado ao Espírito. Este é o guia e principal líder segundo o qual os santos são levados à verdade. Para os quakers, o Espírito é superior e não se subordina à Palavra. Por sua vez, George Fox (1624-1691) afirmou o Cristo como o Logos divino, o Verbo encarnado, e a Escritura como palavras de Deus. Fox sustentava a superioridade de Cristo em relação à Escritura.4 Em síntese, as Escrituras são palavras de Deus, mas não é Deus.

A discussão com os quakers e outros místicos não estava associada necessariamente quanto à possibilidade de revelação extra-bíblica, mas em definir este tipo de revelação como extraordinária, ao invés de ordinária como desejavam os quakers. Mas este detalhe foi expresso na Confissão de maneira subjacente.  

Os quakers também foram combatidos pelos puritanos por que algumas das conclusões eram flagrantemente contraditórias, não apenas em relação à Escritura mas às próprias teses que defendiam. Tome como exemplo uma declaração confusa de Barclay ao afirmar que “a revelação interna não contradiz as Escrituras e nem a correta e sã razão”, para logo em seguida afirmar que “a revelação não pode ser julgada pelas Escrituras, nem pela sã e correta razão.” Os puritanos disputavam a própria existência de revelações imediatas nos moldes quakeristas. Para eles, a ocorrência de profecias não era mais possível de acontecer “ordinariamente” como no NT. Extraordinariamente, talvez.

No entanto, o articulista alega que a interpretação dos quakers sobre o que se redigiu no capítulo primeiro da CFW é crucial para entender que os divines estavam de fato falando irrestritamente de cessação revelacional imediata. Parece-me claro que Richard Cameron (1647-1680) e outros tantos puritanos nem se deram conta que a CFW era cessacionista nestes moldes, visto que em anos posteriores à publicação verificou-se atividade profética entre eles. Uma das profecias, pronunciada por Cameron, é citada na página 125 de Sob os céus da Escócia, muitos anos depois do encerramento de Westminster.

O articulista fez uso da obra de David Dickson, sob a premissa de que este possui autoridade para firmar entendimento definitivo sobre a CFW por ser dela contemporâneo, e, portanto, familiarizado com seu contexto religioso, bem como com as suas conclusões. Convém perguntar: Os quakers também não eram contemporâneos e também não estavam familiarizados com o contexto? Os anabatistas, seekers, et al., também não? No entanto, ele traz ao nosso conhecimento a obra intitulada Praelectiones in Confessionem Fidei relatando impressões sobre um tipo rigoroso de cessacionismo puritano esposado por Dickson. Valer-se de Êxodo 17.14 para afirmar categoricamente que quanto aos modos de revelação “[...] todos findaram com a escrita” (Êx 17:14), me parece um exagero típico. Onde tal “indício” escriturístico pode ser utilizado apropriadamente como prova de cessação revelacional ad eternum? Apenas por que o Senhor ordenou que se registrasse um fato e que este fato memorial fosse lido para Josué? Usar este tipo de exemplo para determinar a cessação revelacional definitiva é o mesmo que apresentar uma faca como evidência de um homicídio praticado com arma de fogo.

A teologia reformada não é tão melindrosa como a erudição cessacionista deseja nos fazer crer. Sobre a questão que envolve a natureza do NT, por exemplo, Calvino sobre o texto de 2Tm 3.17, disse:


Ao falar 'Escritura' significa que Paulo está falando simplesmente do que chamamos de Antigo Testamento; como ele pode dizer que pode fazer um homem perfeito? Se é assim, o que foi adicionado mais tarde através dos Apóstolos parece ser supérfluo. Minha resposta é que, tanto quanto a substância da Escritura está em causa, nada foi acrescentado. Os escritos dos apóstolos não contém nada além de uma simples e natural explicação da Lei e dos profetas, juntamente com uma descrição clara das coisas nele expressas.5

Por conseguinte, o articulista se socorre em Robert Letham, corroborando a tese de que “a questão da revelação especial não foi alvo de discórdia que demandasse uma acomodação de opiniões divergentes.” E prossegue argumentando que “houve acordo generalizado sobre o seu conteúdo”. Mas não me ocorre tenha eu afirmado no livro que havia dissensão no Concílio sobre o conteúdo da revelação especial conforme registrado na Bíblia. Sugere também que os debates na Assembleia de Westminster mantinham-se sob um “clima ameno”, sem maiores controvérsias e polêmicas. Ora, se John Milton, herege uni assim como erastianos e representantes do Parlamento (alguns descrentes?) estavam presentes, dizer que não houve polêmica é ignorar a natureza dos conflitos humanos. John Milton mesmo é conhecido por uma posição controvertida sobre o divórcio6 que foi rechaçada pela Assembleia. Mas ouçamos o Dr. Milne, sobre o background daqueles delegados:


“Eles vieram para a Assembleia com um pano de fundo profundamente influenciado por um protestantismo polêmico que deve muito a esses estudiosos como Martinho Lutero, João Calvino, Zwinglio Huldrich, Henry Bullinger e Pedro Mártir Vermigly. Enquanto João Calvino foi sem dúvida a força dominante entre os puritanos e os escoceses ele não era de modo algum a única. Além disso, o “Calvinismo” foi representado por um espectro de opiniões teológicas dentro de parâmetros reconhecíveis. Isso ficou evidente na própria Assembleia, onde os debates sobre a doutrina da expiação foram expostos radicalmente com diferentes interpretações da sua extensão e aplicação. Não devemos supor que porque Calvino manteve certos pontos de vista sobre a cessação da revelação sobrenatural, estes foram necessariamente espelhados nos documentos da Assembleia de Westminster.”7

Quanto aos comentários sobre o termo “salvação” que uso para revisar a majoritária interpretação da Confissão, o articulista subscreve que entre os puritanos havia aplicação diversa. A tese do Dr. Milne está correta, no entanto o articulista revela não ter apreendido acertadamente seu escopo. Ou seja, ele busca provar, valendo-se do Dr. Milne, que o termo “salvação” expresso no capítulo I da CFW, tem uma abrangência tal que se torna difícil saber qual tipo de salvação os delegados de Westminster tinham em mente. E que em relação a isto, tanto minha análise, quanto minha conclusão laboram em erro. A questão é que meu ponto trata especificamente do termo e seu uso no capítulo I; e mesmo este uso tem conexão direta com os demais ao longo do documento (2.1; 3.5,6). Não há conflito entre a minha tese e a do Dr. Garnet Milne. Ou seja, ainda que o termo “salvação” pudesse ter significado diverso na CFW, no capítulo primeiro ele se relaciona essencialmente com soteriologia e com uma teologia escatológica do Reino mais abrangente com referência ao seu aspecto primordialmente espiritual. Berkhof salienta que “o Reino de Deus é representado não como temporal, mas como um reino eterno (Is 9.7; Dn 7.14; Hb 1.8; 2Pe 1.11). Assim, entrar no Reino do futuro é entrar num eterno estado (Mt 7.21-22), é entrar na vida (Mt 18.8-9), é ser salvo (Mc 10.25-26)”.8

É flagrante neste sentido que o articulista parece não haver compreendido a conclusão do Dr. Milne. Este, quando menciona os aspectos temporais da salvação, avaliados sob o crivo da teologia do Reino de Deus mantém entendimento próximo ao meu. Contudo, sobre isto, o articulista diz:


“Milne observa ainda que uma pesquisa nos Padrões de Westminster “revela que o substantivo, as formas verbais e o conceito de ‘salvação’ aparecem muitas vezes ao longo desses documentos, mas a definição do conceito não é uniforme”.[8] Como evidência dessa afirmação creio que alguns exemplos possam ser apresentados. No Capítulo 2.1, sobre Deus e a Santíssima Trindade, salvação é entendida como perdão dos pecados e libertação da justa retribuição da ira de Deus que não inocenta o culpado. Em 3.5, sobre o Eterno Decreto de Deus, salvação é conceituada como eleição em Cristo Jesus para a glória eterna. Já no parágrafo 6 desse mesmo capítulo os elementos dessa salvação são apresentados, a saber: “santificação, justificação, obediência, santidade, adoção como filhos e boas obras”.[9] No caso, salvação compreende toda a Ordo Salutis. Milne conclui a sua investigação sobre o sentido de “salvação” na CFW afirmando: “Dentro dos capítulos da CFW nós encontramos evidência interna para uma ampla definição de salvação que transcende redenção pessoal ou salvação escatológica e que oferece ao crente benefícios que incluem bênçãos temporais”.

Agora, pedindo licença ao articulista, indago: “Perdão dos pecados”, “libertação da justa retribuição da ira de Deus que não inocenta o culpado” (uso do termo salvação na CFW 2.1), “eleição em Cristo para a glória eterna” (uso em CFW 3.5), ou, “santificação”, “justificação”, “obediência”, “santidade”, “adoção como filhos e boas obras” não representam a mesma coisa? (CFW 3.6). Só quem é salvo, é justificado, obedece, santifica-se, tem o perdão dos pecados e fica livre da justa retribuição da ira de Deus que não inocenta o culpado. Ora, se dizemos que alguém foi eleito em Cristo para a glória eterna, certamente teremos dito que ele foi o quê, senão salvo? Ou, se afirmarmos que alguém foi liberto da justa retribuição da ira de Deus, estaremos afirmando o quê? Que este alguém foi salvo, óbvio. E se eu assevero que um pecador foi justificado, não concluo que tal justificação se dá para que a salvação (como benção temporal e eterna) se estabeleça (Rm 8.29-30)? Neste sentido é que o capítulo 14 da CFW diz que salvar-se é “aceitar e receber a Cristo e descansar só nele para a justificação, santificação e vida eterna, isso em virtude do pacto da graça”.

O que o Dr. Milne sugere é que o termo “salvação” para os puritanos pode ser abrangente em certo sentido, mas está ligado a uma única ideia central (ordo salutis). E, evidente que transcende o ponto de redenção pessoal (ou particular). Isto por que, na Escritura, salvação ora é mencionada a indivíduos, ora a povos, nações, etc. Ora se fala em redenção de povos, ora, de pessoas em particular. Basta uma lida em Romanos 8-9 para compreender isso. Além do mais, trata-se de redenção escatológica tanto quanto se trata de salvação do pecado estrutural que mantém influência neste mundo tenebroso. Salva-se também aquele que se opõe à esta estrutura e se rende ao padrão do Reino de Deus em confronto com o mundo que jaz no maligno. “Salvo” pode considerar-se aquele que não se conforma com este século (Rm 8), e é neste sentido que, ao meu ver, a redenção assume também aspecto de benção temporal apontado por Milne. Todavia, o articulista se esforça inutilmente no propósito de tentar nos fazer acreditar que existe diferença etimológica substancial entre “tire uma xerox” e “tire uma xérox”, quando “tenho sede de água” e “vou à sede da empresa” é que são realmente diferentes. A palavra “sede”, a depender do contexto e uso empreendido, assume conotação diametralmente distinta.

E quanto a este último ponto, ou seja, o fato do articulista não haver entendido o que o Dr. Milne escreveu, de certa forma revela uma dificuldade hermenêutica alimentada pela teologia dogmática. Em síntese, ele leu e não entendeu Sob os céus da Escócia, tanto quanto leu e não entendeu o livro do Dr. Milne.

Por derradeiro, cabe aqui uma pergunta, prezado leitor: Porque a Confissão de Fé de Westminster inicia com um capítulo sobre as Escrituras Sagradas? Você nunca parou para se perguntar a respeito? Natural seria que o primeiro capítulo reservasse espaço para tratar sobre ontologia divina. Sendo esta, a prática corriqueira, por que os teólogos de Westminster fizeram diferente? Penso que para registrar que estas tensões eram tão fortes e significativas que exigiram lugar de destaque e primazia nos debates. Mas este é um ponto que abordaremos no volume 2. 

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1. Exposição sobre Capítulo 12 de Romanos. O comportamento Cristão. Editora PES. 2003, p. 283.
2. A propósito, o relato de Lloyd-Jones combinado com o meu, aponta que foram no mínimo duas ressurreições operadas a partir do ministério de Welsh.
3. RUTHERFORD, Samuel. A Survey of Spiritual Antichrist. London: Printed by F.D. & R.I for Andrew Grookeand, 1648, chap. vii of revelation and inspiration, p.39.
4. FOX, George. The Works of George Fox. Philadelphia: M.T.C Gould, Journal, vol. i, 1831, p. 171.
5. CALVIN, John. The Second Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians and Epistles to Timothy, Titus and Philemon, eds. D.W Torrance, T.F. Torrance, trans. T.A. Smail, vol. 1, Calvin's Commentaries. Grand Rapids: Eerdmans, 1964.
6. MILTON, John. The Doctrine and Discipline of Divorce.
7. MILNE. Garnet Howard, The Westminster Confession of Faith and Cessation of Special Revelation. A Thesis submitted for the degree of Doctor of Philosophy at University of Otago, Dunedin, New Zealand, 2004, pp 44-45. Como minhas consultas se deram na própria tese do Dr. Garnet, encaminhada gentilmente por ele, e não no livro como o articulista, transcrevo ipsis literis o trecho como está na tese: B. Theological inheritance: “They came to the Assembly with a background profoundly influenced by a polemical Protestantism which owed much to such scholars as Martin Luther, John Calvin, Huldrich Zwingli, Henry Bullinger and Peter Martyr Vermigli. While John Calvin was arguably the dominant theological force among the Puritans and the Scots, he was by no means the only one. Furthermore, “Calvinism” was represented by a spectrum of theological opinions within recognizable parameters. This was evident at the Assembly itself, where debates on the doctrine of the atonement exposed radically different interpretations of its extent and application. We should not assume that because Calvin held certain views on the cessation of supernatural revelation, these were necessarily mirrored in the Westminster Assembly documents.”
8. BERKHOF. Louis, Systematic Theology. Grand Rapids: Eerdmans, 1959, p. 708.


quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

E o Verbo se fez carne...


Renan Moreira

Hoje é 24 de dezembro de 2015 e faltam cerca de 4 horas para a chegada do dia tão desejado do ano no qual a família se reúne em torno de uma farta mesa para se alegrar e trocar presentes. Essa data tem uma origem e creio que perscrutá-la seria interessante em seu aspecto teológico com consequências práticas para a piedade do lar, da família.

A data de 25 de dezembro jamais deveria ser comemorada sem que antes a verdadeira motivação fosse relembrada. Celebra-se o grande marco da história da humanidade, o nascimento daquele que dividiu as eras. Tentativas foram feitas de extinguir o Seu nome, mas como apagar de sobre a terra o nome daquele que é antes do tempo e sem o qual o tempo não existiria?



Comumente apenas dois grandes eventos envolvendo o Salvador são relembrados, a saber, o Natal, como memorial do nascimento do Cristo, e a Páscoa, como memorial da morte na rude cruz para salvar os Eleitos de Deus. 

Contudo a cristandade tem dividido o ano em períodos litúrgicos, isto é, ciclos que objetivam relembrar não apenas o nascimento, mas também sua vida, sua morte, sua ressurreição. É o esforço comum de compreender o plano salvífico como um desenvolvimento completo, de modo que Cristo seja sempre visto como o centro da liturgia e da fé. Todas as coisas na vida da Igreja são acerca dEle e se assim não for, há algo de errado com a fé professada.

A igreja precisa relembrar que toda a mensagem cristã está centrada na encarnação do verbo. Natal não é a afirmação de que Jesus se fez homem no dia 25 de dezembro, pois isso seria tolice. Comemoramos, na verdade, a encarnação do verbo que ocorreu muito antes, ainda antes que o mundo existisse, como Decreto do Deus Eterno. Quaisquer concepções que tenhamos acerca de Cristo, se não estiverem centradas nessa revelação, são pequenas demais, são deficientes. 

Nunca é demais lembrar que a primeira profecia messiânica partiu dos lábios do próprio Deus (Gn 3:14,15) e que posteriormente, muito profetas falaram acerca do grande dia em que se manifestaria o Salvador (Is 9:2). O profeta Isaías, por exemplo, ao vaticinar o advento e o poder do Messias afirmou que seria Ele a luz que resplandeceria nas trevas e faria dissipar a sombra da morte (Is 9:2); nações se alegrariam diante dEle e em seu nome (Is 9:3); Esse Salvador seria o próprio Deus que se faria homem e habitaria entre nós (Is  9:6,7).

Penso que também não seja demais recordar que o próprio Cristo se identificou como sendo o Eterno Deus Jeová (Ex 3; Jo 8:54-59). Há motivos suficientes para nos alegrarmos diante de Deus. O Jesus que nasceu em uma manjedoura, sem hora, sem glória, sem menção é o Deus que se fez homem, um pouco menor do que os anjos para que pela Graça de Deus, provasse a morte por todos (Hb 2:9).

O Reverendo Jonas Madureira cirurgicamente aponta para a oração ácida do justo Jó registrada em Jó 10:4,5 quando este disse “Acaso tens olhos de carne? Enxergas como os mortais? Teus dias são como os de qualquer mortal? Os anos de tua vida são como os do homem?”. Qual a resposta para essa indagação? O verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1:1). Veio em forma de criança, foi educado, trabalhou, fez discípulos, exerceu seu ministério por 3 anos e foi morto como se fosse um malfeitor (Is 53:1-12; Mc 15:27). Quem era Ele? Era o verbo encarnado sem o qual nada do que foi feito, teria sido feito (Jo 1:3).

Que nos recordemos de que o Natal que cremos é muito mais valioso do que o comer ou o beber. Que ao comer, saibamos que isto é benção de Deus; que ao Beber, nos recordemos que o vinho que resplandece no copo e que alegra o coração do homem (Sl 104:15) também é bonança do Senhor. Desta forma não nos esqueceremos da centralidade da Pessoa de Cristo e da sua Eterna bondade para conosco. 

Não nos faltam motivos para agradecer! Não nos faltam motivos para celebrar!

Que Deus seja louvado!


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Carta a um jovem universitário.

 [Dr. Stanley Hauermas]

Robert Louis Wilken escreveu que “A religião cristã é inevitavelmente ritualista (te recebem na igreja por meio do sacramento do batismo), é inflexivelmente moral (“Sejam santos como meu Pai no Céu é Santo”, disse Jesus) e invariavelmente intelectual (“Estejam preparados para dar a razão da esperança que há em vós”, segundo as palavras de Pedro em sua primeira epístola).

"O cristianismo é mais que um kit de práticas espirituais e um código moral. Trata-se também de um modo de pensar acerca de Deus, das pessoas, do mundo e da história”. Que estas palavras de Wilken – ritualista, moral, intelectual – com as quais ele abre seu belo livro intitulado “O Espírito do pensamento cristão” estejam marcadas em seu coração agora que está iniciando o seu curso universitário. Que estas palavras marquem sua vida, que a caracterize e a distingua pelos próximos quatro anos.

Seja fiel na adoração. Na cultura atual, ir à universidade é um dos acontecimentos mais carregados de um ar mitológico – todos consideram que a universidade irá “mudar suas vidas”. Em certa medida isso é verdade, no entanto não pense que está autorizado a tirar férias da igreja.

Seja inflexivelmente moral. A vida de um estudante universitário pende em direção a um excesso de neopaganismo. Mesmo um bom jovem, educado por uma boa família, tende também a beber e vomitar no curso dos quatro anos de seu curso. Não raras vezes fazem ambas as coisas enquanto se dirigem a uma máquina automática de preservativos. Que desperdício! Não é um desperdício apenas pelo fato dessa conduta ser autodestrutiva, mas também porque impede que o trabalho intelectual exigido pela fé cristã seja realizado.

Seja profundamente intelectual. Necessitamos – nós, a igreja – que você tenha um ótimo desempenho universitário. Isso pode soar estranho, pois muitos dos que falam em valores cristãos parecem estar preocupados apenas com sua conduta fora da sala de aula, reduzindo assim a importância do cristianismo àquelas atividades que são realizadas fora do ambiente de estudo.

O cristianismo é bem claro a esse respeito. Ser estudante é uma vocação, um chamado real. Seus pais podem ter economias específicas para o custeio dos seus estudos ou você mesmo pode estar pagando, ou ainda estar se utilizando de algum meio de financiamento, pode ainda ser possível que seja um beneficiário de uma bolsa de estudos. Independentemente da fonte do custeio, o resultado não muda. Você tem o privilégio de entrar no período de quatro anos no qual sua principal atividade será ouvir aulas, participar de seminários, ir ao laboratório, ler livros. Trata-se de um presente extraordinário. Em um mundo de profunda injustiça e desigualdade, há pessoas que concedem a outros a oportunidade para estudar. Você deve considerar seriamente este seu chamado, que certamente é seu pelo simples fato de ter conseguido entrar em um curso universitário.

Provavelmente você pense algo como “Do que você está falando? Estou somente começando meu primeiro ano e não creio ter um chamado para ser estudante. Nenhum dos meus companheiros pensam ter tal chamado. Vamos à universidade porque nos prepara para a vida. Vou à universidade porque me permitirá ter um melhor trabalho e assim uma vida melhor, inalcançável para aqueles que não estudam. Isso não é um chamado”. Você é um cristão e isso significa que você não pode ir à universidade somente para obter um melhor emprego. As pessoas tendem a pensar na vida acadêmica de forma invertida, posto conceberem a educação como uma conta bancária, onde o depósito é o conhecimento e a capacidade adquirida e quando chega a época de conseguir um emprego, transfere-se tudo isso por meio das informações postas no currículo e, por fim, saca-se todo o dinheiro investido ao longo dos quatro anos. Assim como as demais pessoas, os cristãos precisam de um emprego, no entanto sucede o resto de sua vida o mesmo que ocorre na universidade. Ambos não te pertencem e por isso não pode fazer o que bem entende, pois ambas fases pertencem a Cristo.

O chamado que Cristo te faz como estudante é um chamado para atender as necessidades da igreja, pela saúde dela e pela vida do restante do mundo. A ressurreição de Jesus – sugere Wilken – não é apenas o fator central da adoração, mas também o fundamento de todo pensamento cristão acerca de Deus, acerca das pessoas, acerca do mundo e da história. Alguém deve desenvolver melhor esse pensamento e você é esse alguém.

Não pense que a igreja necessita pouco de seu intelecto. Você consegue se lembrar dos estudos bíblicos sobre o profeta Isaías? Vemos uma profecia sobre um servo sofredor como uma referência ao Cristo. Isso parece óbvio, no entanto não é, ou ao menos não era, suficientemente óbvio para o eunuco etíope ao qual o Senhor enviou  Felipe. Cristo está escrito em todas as partes, não somente nas profecias do Antigo Testamento, mas também nas páginas da história e dos livros da natureza. Desde os primórdios a igreja tem se esforçado para demonstrar isso mediante sua explicação, interpretação e esclarecimento, mas para fazer esse trabalho de reflexão e de interpretação, se requer uma mente instruída. A física, a sociologia, a teoria da literatura francesa – tudo isso e muito mais – está banhado da luz de Cristo. É requerido os olhos da fé para ver essa luz e se requer uma mente instruída para compreender e articular aquilo que se vê.

Há também uma outra dimensão no trabalho intelectual. Na primeira carta do apóstolo Pedro lemos que devemos “estar preparados para responder com mansidão e temor qualquer um que pedir a razão da esperança que há em vós” (3:15). Nem todos creem. De fato, as universidades atuais são lugares de incredulidade em sua absoluta maioria. Assim, a igreja tem um trabalho para fazer, a saber, o de explicar o motivo pelo qual a fé no Senhor ressurreto tem sentido. Não há uma fórmula ou um argumento mágico capaz de resolver todas as objeções possíveis, no entanto é possível oferecer uma defesa racional conforme Pedro afirma. Você pode fazer com que outros pensem pelo menos duas vezes antes de rechaçarem o Senhor ressurreto.

De qualquer forma, o foco aqui não é a defesa da qual Pedro fala. Muitas pessoas se sentem
desorientadas porque pensam que ser um intelectual é incompatível com a fé. A igreja deseja alcançar essas pessoas, porém fazê-lo requer que o embaixador conviva no mundo intelectual. Esse embaixador é você, ou ao menos você é aquele que pode chegar a sê-lo se fizer o seu trabalho com entusiasmo. Participa do amor ao conhecimento. É um amor valioso em si próprio e que permitirá que você seja o fermento da massa da Academia.

Ser um estudante é ser chamado para servir à igreja e ao mundo. No entanto, sempre se lembre de quem serve a quem. Uma universidade se concentra no conhecimento e ao fazer isso, gera a ilusão de que ser bem inteligente e bem instruído é o centro e o objetivo da vida, contudo para ser cristão não é necessário ser instruído e isso é algo óbvio. Cristo se torna visível ao mundo sempre que uma pessoa responde ao seu chamado de “Vem e segue-me”. Me atrevo a dizer que Francisco de Assis foi mais importante para a igreja medieval do que qualquer intelectual e isso foi ratificado por um dos mais brilhantes homens da história da igreja, um verdadeiro intelectual, o Franciscano Boaventura. Porém, a igreja também necessita que alguns de seus homens sejam instruídos como o era o sábio Boaventura, sendo esta a razão pela qual ele dava aulas na Universidade de Paris. Objetivava com isso incentivar aos seus irmãos franciscanos a não abandonarem à educação.

A melhor forma de pensar na relação entre o seu chamado de estudante e o chamado dos demais cristãos se encontram nas palavras de Paulo em I Co 12. Nesta carta Paulo trata com uma comunidade em crise por causa de várias facções que afirmavam ser de algum modo especiais. A situação atual não é diferente. Há pastores que consideram que o trabalho de pregação e evangelização é o mais importante; professores que reputam a educação como mais importante ou mesmo ativistas sociais que consideram de suma importância fazer com que o mundo seja mais justo; há também aqueles que insistem que a chave é a renovação espiritual. A despeito de todos esses posicionamentos, Paulo recorda à igreja em Corinto que ela é integrada por uma multiplicidade de dons que servem para a comum edificação da igreja. A uns é concedida a sabedoria, a outros o conhecimento, a outros o dom de curar, a profecia, o discernimento de espíritos. Você deve honrar aos que servem à igreja como ministros ordenados ou por meio de ação social ou na direção espiritual, porém não se esqueça que você é estudante, não um pastor, não um ativista social, não um guia espiritual. Independentemente do que você faça no futuro com a sua vida, este é o momento no qual deverá se dedicar a desenvolver sua capacidade intelectual da qual a igreja precisa para ser edificada.

O seu chamado cristão não requer que você se transforme em um teólogo, ao menos não no sentido oficial da palavra. Falo como alguém cujo trabalho é de “professor de teologia” e certamente espero que sinta alguma atração por essa área de estudo. Atualmente, ao menos no Ocidente, onde as correntes intelectuais têm se desvinculado do cristianismo, a teologia se encontra numa trágica situação. Não raramente há a tentação de vestir o evangelho com o último modismo acadêmico. Em tais circunstâncias, Deus sabe de quanta ajuda necessitamos.

Contudo, há um sentido mais amplo no qual, de certo modo, todos são teólogos. O simples fato de termos que pensar em tudo à luz de Cristo já é apto a caracterizar como um teólogo em sentido lato.  Não estou falando de tentar fazer com que cada coisa aprendida se harmonize com parte da doutrina eclesiástica ou da pregação bíblica – isso é teologia strictu sensu, no sentido oficial da palavra.  Tornar-se um acadêmico cristão é mais uma questão de intenção e desejo de levar o testemunho de Cristo ao mundo contemporâneo da ciência, da literatura, etc.

Você não pode fazer isso sozinho. Necessita de amigos e de outras disciplinas do saber: da física, da biologia, da economia, da psicologia, da literatura e cada disciplina. Estes teus amigos podem ser professores ou outros estudantes, mas o maior número dessas amizades intelectuais serão encontradas em livros. C. S. Lewis tem sido popular entre estudantes cristãos por muitas razões. Uma dessas razões é porque são acessíveis a seus leitores como um confiável amigo em Cristo. Isso também é verdade no que diz respeito a muitos outros autores. Conheça-os.

Além do mais, os livros muitas vezes são o caminho pela qual se inicia nossa amizade com outros colegas ou professores, o caminho pelo qual muitas amizades se fundamentam. Não sou um entusiasta de Francis Schaeffer, mas um livro seu também pode ser um ponto de contato, algo com o qual você está de acordo ou sobre o qual pode discutir. O mesmo vale para todos os escritores que tratam de grandes temas. Leia Platão, Aristóteles, Hume, John Stuart Mill, não apenas para aprender, mas para dar agudeza e profundidade a sua conversão. Tornar-se instruído significa em grande medida agregar vários níveis aos seus relacionamentos. O ir a uma partida de futebol ou mesmo tomar uma cerveja é algo muito bom em si mesmo, mas também é um tipo de realidade que se presta para a conversa, análise e discussão. Se você lê Mary Douglas ou Claude Levi-Strauss, terá algo a dizer sobre os rituais do esporte contemporâneo. A leitura de Janes Austen ou T.S Eliot te dará uma nova luz para conversar com seus amigos em particular ou sentados ao redor da mesa. Não deixe de ler Antony Trollope. Pense nos livros como os finos fios de um tecido que se cruzam e se conectam.

Isso é particularmente certo a respeito de tua relação com teus professores. É muito provável que seus professores não se tornem seus compadres. Podem até ser intimidadores, no entanto pode vir a ter com eles uma amizade intelectual e isso é mais provável se lerem as mesmas obras. Isso é também correto para os professores de ciências. É improvável que você participe com ele de uma conversa empolgante sobre partículas subatômicas, pois um estudante sabe muito pouco sobre isso, mas leia “as duas culturas” de C. P. Snow e te asseguro que o seu professor de física irá querer saber suas considerações. Os livros são pedras de toque, pontos comuns de referência, são as águas que você nada e que revelam sua mente.

Se alguns te identificarem como um intelectual, você não pode e nem deve evitar. Confesso que fico completamente à vontade com a palavra “intelectual” para me referir aos que estão comprometidos com a universidade. A palavras tem sido associada a pessoas autoindulgentes, com pessoas que agem como se não devessem justificar o que fazem. Essa compreensão do que é ser um intelectual só se justifica se o conhecimento for pelo próprio conhecimento. Essa tentação pode ser evitada se você compreende o seu chamado como estudante. O seu conhecimento se presta ao serviço do evangelho e da igreja. Não rejeite este chamado pelo fato de outros estarem abusando do mesmo chamado.
Realmente não é fácil cumprir com teu chamado como estudante cristão. A vida intelectual não é fácil para ninguém que a leve a sério, seja este alguém um cristão ou não. Os currículos de muitas universidades podem parecer – e muitas vezes o são – caóticos. Muitas escolas carecem de uma meta particular. Você cumpre um conjunto de disciplinas de formação geral – talvez um curso de redação – e depois você cursa aquilo que bem entende. Ademais, inexiste garantia de que os alunos serão estimulados a ler. Alguns cursos, sobretudo nos cursos de Ciências Humanas, estão sendo baseados em manuais que oferecem recortes dos clássicos. Não há como se tornar amigo de um Autor se você lê apenas 6 (seis) páginas de sua obra. Finalmente, e o mais incrível, há um curioso anti-intelectualismo dentro do próprio mundo acadêmico. Alguns professores têm convencido a si mesmos de que todo conhecimento é mero poder político revestido de uma linguagem chamativa ou que os livros e as ideias são simplesmente armas ideológicas em meio a uma luta pelo domínio. Nós cristãos devemos reconhecer que o conhecimento e o modo de produzi-lo pode ser um espelho das relações de poder injustas, mas isso não é o mesmo que afirmar que todas as perguntas a respeito da verdade devam ser abandonadas. Como afirmei, não é tarefa fácil.

É por você mesmo e pela igreja que deve desejar que a incoerência, a displicência e o excesso de autocrítica das universidades contemporâneas não te abata e te desmoralize. Não permita que essas falhas sirvam de desculpa para evitar uma educação cristã. Embora algumas universidades apresentem tendência a fazer com que desistir da educação seja uma tarefa fácil para seus alunos, creio que você descobrirá que em toda universidade há professores que merecem os títulos que tem recebido. Sua tarefa é encontrar esses professores.

Como encontrar os melhores professores? Não há meios fixos para fazê-lo, mas poso sugerir algumas diretrizes. Primeiro verifique se há professores que tenham reputação de bons mentores intelectuais de estudantes cristãos. Como você já tem mais de 18 anos, você não deve procurar por “pais substitutos”, ao menos não por algum que te trate como se você tivesse 12 (doze) anos. De qualquer modo, precisa de guias confiáveis. Vale a pena refazer sua agenda para poder aprender sobre Dante com aquele professor que ensina de forma sensível acerca da profunda visão teológica deste grande poeta. Pode discordar dele, porém te ensinará a pensar como um cristão.

No começo do semestre visite a biblioteca. Veja os livros que são recomendados pelos professores. Me refiro a livros de verdade, não a manuais. Os manuais podem desempenhar um papel legítimo em algumas disciplinas, porém não em todas e nunca deve desempenhar em todas os níveis. O que você deve desejar é cultivar amizade com professores que sejam intelectuais; que querem compartilhar o conhecimento com seus alunos. Se o programa de um curso dedica várias semanas à leitura do livro “Confissões” de Santo Agostinho, é razoável supor que Agostinho encontra-se entre os personagens que seu professor conhece (ou quer conhecer) e que quer que você também conheça.

Os melhores professores para um estudante cristão nem sempre são cristãos. Há um tipo de professor cristão que pode confundi-lo porque não é fácil ver a verdade de Cristo na ciência moderna ou na teoria crítica contemporânea, por exemplo. Por esse motivo é fácil ceder a tentação de dividir a vida por esferas e limitar a fé ao seu coração e continuar com seu trabalho acadêmico como se não representasse coisa alguma. Há professores quer estão muito à vontade com esse tipo de divisão da vida. Você deve buscar fortalecimento espiritual e sempre que precisar, essa classe de professores poderá ser de grande ajuda, no entanto não siga seus passos nessa divisão da vida em esferas porque isso implica basicamente em deixar tua fé fora do teu trabalho como estudante.

Seu chamado é ser um estudante cristão. Ser estudante e ser cristão são conceitos inseparáveis. Isso será duro e frustrante em alguns momentos, pois nem sempre conseguirá ver como integrar as duas coisas. Ninguém encontra-se plenamente esclarecido a esse respeito, contudo deve se recordar das palavras de Cristo “eu sou o Alfa e o Ômega”. Embora tenhamos dúvidas sobre a forma como ambos conceitos se harmonizam, ser estudante (ou professor) e cristão estão sempre de mãos dadas.

Muitos professores não são cristãos (em algumas escolas, a maioria não é), porém muitos têm um tipo de piedade especialmente relevante para a vida acadêmica. Algum professor pode estar especialmente comprometido com o intrínseco valor de conhecer a poesia de Wordsworth e outros têm a mesma dedicação a um experimento químico. O que ambos transmitem é um espírito de devoção. Suas vidas intelectuais servem ao seu objeto de estudo ao invés de tratá-las como um objeto que deva ser dominado ou como um corpo de informações que deve ser transmitido aos estudantes. A literatura inglesa e a ciência moderna não existe por si mesmas e a universidade não arrecada fundos para simplesmente sustentar a carreira dos seus professores. Para estes professores o sistema educacional existe para suas disciplinas, disciplinas que lecionam com gosto. Este espírito de devoção não é idêntico à fé cristã, mas pode te ajudar a dar forma aos desejos e impulsos intelectuais, recordando você de que sua missão como estudante não é ser servido, mas servir. A universidade não é para você, é para seu chamado cristão como intelectual.

Em breve você deixará de ser um calouro na universidade e o sistema te induzirá a se especializar. Isso traz riscos e oportunidades. Será tentado a ter uma especialização principal que te dê certa sensação de coerência; tenha cuidado para que não estreite sua mente na direção errada. É verdade, por exemplo, que a psicologia moderna dá uma significativa compreensão da condição humana, mas não permita que essa crescente especialização gere em você a ilusão do domínio. Mantenha leituras variadas. Terá a sensação de que conhece pouco, mas tem um conhecimento aprofundado acerca desse pouco. A lição que deve tirar desse crescente conhecimento é de humildade. Após muitos anos participando de cursos sobre história da Europa moderna, saberá muito mais acerca da Revolução Francesa, porém será muito mais consciente sobre a dificuldade para aprender algo bem. Existe muito mais do que a história europeia moderna para ser aprendida!

Para combater a tendência da complacência – própria do domínio de um assunto – é particularmente importante que tenha uma perspectiva histórica do desenvolvimento da matéria. Tenho em alta estima o conjunto de disciplinas que chamamos de “ciências”. Infelizmente, com muita frequência, quem as estuda não tem a menor ideia de como e por que se desenvolveu a agenda de pesquisa em direção às práticas hoje tão comuns. Pode ser chocante voltar no tempo e ler algo acerca de Isaac Newton, pois perceberá que ele mesclava sua análise científica com argumentos teológicos. Não é necessário que pense que este é um dever para o século XXI, mas você deve considerar que a ciência moderna tem profundas dimensões metafísicas e teológicas que não podem ser deixadas de lado. O ponto básico é que conhecer a história da disciplina estudante te levará a ampliar o tipo de perguntas feitas e forçará a ler como um intelectual em vez de um mero especialista.

Também é importante que aprenda a não pensar que as classificações apresentadas na universidade são definitivas. Dante, por exemplo, será estudado em departamento de letras. Se ensina ali porque se considera que o inferno é “literatura”. É óbvio que Dante era um poeta e um dos maiores, porém também era um teólogo e não lhe faremos justiça se ignorarmos suas convicções teológicas específicas; Algumas de suas idéias são controversas para o tempo dele e para o nosso, todavia se encontram no centro de sua vida e obra. Igualmente pode ser dito sobre os departamentos de teologia, muitas vezes dominados por um escolasticismo e uma filosofia de reflexão que ignora as tradições místicas, assim como as tradições de comentários bíblicos.

Desta forma se enfatiza a necessidade de ampliar seus horizontes com perguntas históricas e desafiando as classificações predominantes. Se assim agir, faça-o porque seu chamado é ser um estudante cristão, não um estudante de física ou inglês. Mais uma vez devo esclarecer que meu interesse não é que cada cristão entre numa universidade e se torne um teólogo, porém é importante que faça perguntas teológicas aos assuntos que estão sendo aprendidos. Se, por exemplo, está estudando economia, estará em uma disciplina dominada por modelos matemáticos e de “eleição racional”. Ditas teorias podem ter sua utilidade (para usar uma expressão dessa área), porém também podem trazer pressupostos antropológicos que um cristão não pode aceitar. Se deseja que sua vida intelectual seja formada apenas pela disciplina estudada, então você não será capaz de compreender a problemática em comento.

Eu gostaria de poder dar conselhos mais práticos e concretos, no entanto como disse Tip O'Neil sobre a política, a maior parte da vida acadêmica é “local”. Os programas de teologia de algumas universidades nominalmente cristãs são diretamente nocivos para o chamado de um estudante cristão. Outros programas, por sua vez, são uma ajuda maravilhosa. Para alguns estudantes, estudar sob a tutoria de um professor que se apresente como ateu  pode ser o primeiro encontro com um mestre que creia que a fé é relevante para a vida intelectual, embora o creia em um sentido negativo. Esse encontro não tem motivo para corromper o estudante cristão. Pode despertar as convicções do estudante e pô-lo no caminho que o levará a averiguar como a fé apoia e motiva a vida intelectual nessa situação. De qualquer forma, tal como tenho enfatizado, necessitará de bons mentores – homens e mulheres que sejam dedicados ao seu trabalho e que vejam suas especialidades de forma humilde, que leiam amplamente e sejam intelectuais em vez de especialistas.

Permitam-me retornar à observação de Robert Wilken sobre a vida ritual, moral e intelectual do
cristão. Não se engane. Somente um homem ou uma mulher que tenha passado por um longo processo de disciplina espiritual pode entregar-se confiantemente à oração solitária. Você é jovem. Você necessita de uma regular participação na disciplina da adoração, leitura bíblica e comunhão cristã. Não se afaste disso durante a universidade; tampouco negligencie as tentações morais da vida universitária contemporânea. As atitudes de nossos amigos nos influenciarão, razão pela qual devemos escolhê-los sabiamente.

Adorar a Deus e viver de modo fiel são duas condições necessárias para se sobreviver na universidade. Como cristão, você é chamado a sobreviver. Você é chamado a usar esta oportunidade para ver o mundo como uma criatura de Deus, de um Deus que deseja que conheçamos o amor que nos trouxe à existência. Como membro da igreja, conto contigo. Não será fácil. Nunca foi. Mas posso afirmar que será uma fonte de alegria.

Você tem uma fantástica aventura pela frente. Desejo que te vá bem.

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1. Este artigo foi publicado originalmente em first things  em novembro de 2010.

2. A tradução foi feita por Fabio Farias da Costa.

3. A revisão foi feita por Renan Moreira

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Desabafo de um Presbítero


Desabafo de um Presbítero

Ø  Relato de um amigo, Presbítero da IPB, sobre sua vida ministerial.

Em dezembro, concluo o meu primeiro mandato como presbítero regente. Nestes cinco anos, pude descobrir e em alguns casos apenas confirmar várias coisas:
1) A urgentíssima necessidade de homens de que padece a Igreja. Grande parte dos líderes da igreja são a) moleques; b) afeminados; c) omissos; d) uma pérfida mistura das opções anteriores;
2) A Igreja simplesmente é governada pelos presbíteros docentes (pastores ou ministros). A omissão do presbiterato regente é gritante. Participo ativamente do meu presbitério e do meu sínodo e sou - pasmem! - o único presbítero regente a se pronunciar sobre questões importantes para a vida conciliar ou das igrejas jurisdicionadas. O restante dos presbíteros (geralmente alheios a tudo o que acontece em um plenário devido ao total despreparo) se limitam a acompanhar o voto de pastores conhecidos.
3) A igreja está envolta em politicagem. Percebo isso desde o meu presbitério até ao Supremo Concílio da IPB. Acordos para revezamento de presidência, acordos em comissões de indicação para cargos, acordos para a não prestação de algumas informações que colocariam alguns em maus lençóis, etc.
4) Um crescimento do interesse de muitos jovens pela boa teologia e pelos padrões reformados. Isso ocorre na minha cidade e em algumas cidades próximas. São livros que circulam e encontros e palestras realizados. Espero em Deus que isso frutifique e que não seja mero intelectualismo “igrejeiro” estéril.
5) Um desejo ardente de dar a minha modesta contribuição a esta geração. Espero estudar mais a Palavra de Deus e vivê-la; espero influenciar positivamente, no que puder, àqueles que estão em contato direto comigo; espero ajudar na formação de presbíteros e diáconos que façam valer o ofício recebido por Deus e pela imposição das mãos dos oficiais; espero ajudar, por pouco que seja, com as minhas fracas e débeis mãos, a expansão do Reino de Cristo aqui na terra.

Que Deus me ajude.

domingo, 12 de outubro de 2014

Seis dias trabalharás...

[ Atila Calumby ]

De forma absurda, no Brasil, impera um maciço desejo político de ampliação dos programas sociais. A candidata Marina Silva, que graças a Deus não foi para o segundo turno, chegou a propor a implementação de um 13º salário para o Bolsa Família, sem contudo considerar que tudo isto tem um custo e que este só poderá ser arcado com muito dinheiro.

Nos últimos tempos, o Banco Central tem adotado a política de emitir
papel-moeda de forma discricionária e abusiva, o que acaba por inferiorizar o valor da moeda em âmbito internacional e majorar os índices inflacionários;  propostas semelhantes a de Marina Silva servem como incrementadores de uma crise e nenhum bem traz à nação. Por outro lado, o assalto institucionalizado, lê-se “alta carga tributária”, do qual o cidadão é vítima somente paralisa o desenvolvimento econômico e leva a uma inevitável fuga de investimentos para o exterior.

Se os responsáveis pela geração de riquezas – pequenos, médios e grandes investidores – forem impedidos pelas políticas burocráticas do governo de crescerem, o avanço social não será feito justamente pela falta de capital, consequentemente, haverá senão a crise e falência do país.

É indubitável que inexiste o sonhado desenvolvimento social sem que haja desenvolvimento econômico. É com empregos – na iniciativa privada – que o país poderá decolar economicamente em direção ao 1º mundo e não com empregos estatais e/ou programas sociais de cunho eleitoreiro. Um sábio presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, dizia que o maior programa social é um emprego. É exatamente aí que o Brasil falha. O Brasil precisa buscar a geração de empregos no setor privado com a consequente redução da intervenção estatal na economia, isto é, mais liberdade para a movimentação da máquina econômica.

Quando os políticos labutam pela ampliação de programas sociais como o Bolsa Família, o que fica evidente é o total fracasso desse projeto. A meta de qualquer projeto social é diminuí-lo ao ponto de não ser mais necessário, logo pela via transversa, aumentar a utilização de um projeto social somente prova que o governo não consegue tornar o povo livre, mas apenas dependente. O que se vê massivamente é uma abstenção na procura de emprego por parte dos beneficiários e quando conseguem encontrar um emprego, preferem que não haja registro no Ministério do Trabalho para que não percam o benefício! Duvida? Vá, por exemplo, à ‘rica’ região do Sul de Minas Gerais e veja a dificuldade que o agricultor enfrenta para encontrar mão de obra, e pior, para registrá-los conforme determina a lei.

É necessário refletir o que queremos para o Brasil do futuro. Será que o nosso desejo é realmente seguir nessa luta social? Nessa trilha de estatização dos meios de produção? De uma dependência cada vez maior do governo? Se continuarmos nesse ritmo, acabaremos falidos como a Venezuela. Lutem pelo trabalho, pela liberdade individual e pela geração de lucros! É isso que vai criar e atrair empresas que geram riquezas, fazendo do trabalho a benção divina que salvará a economia de nossa nação!