quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Depravação total – Soteriologia Reformada


Renan Almeida


“E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência; Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também”  (Ef 2:1-3)

Todas as religiões e filosofias humanas, com exceção do cristianismo,tem apregoado que o homem pode se aperfeiçoar por esforços próprios. O que é a penitência senão a tentativa de auto-justificação? A filosofia sempre tenta colocar o homem como centro do universo, capaz de escolher seu destino e melhorar a si mesmo. Todos esses pensamentos, a princípio, parecem maravilhosos, mas quando olhamos para as Escrituras vemos o quão vãos são esses pensamentos. Somente através das Escrituras, podemos compreender a Depravação do homem.

Pelas Escrituras, compreendemos que o homem é totalmente depravado e que é incapaz de salvar a si mesmo, independentemente de quais sejam os seus méritos pessoais. Essa  é  uma  verdade  redescoberta  na  Bíblia  durante  a  Reforma  que  transformou  a  Europa  no  século dezesseis  e  tem  impactado o mundo desde então.  Infelizmente, nos  tempos modernos, os ensinamentos prejudiciais do Arminianismo  têm  tido  um papel predominante na maioria das  igrejas protestantes, na medida  em  que  estas  se  tornam  mais  antropocêntricas  que  teocêntricas.

Quando o apóstolo Paulo inicia sua explicação aos efésios acerca da salvação pela Graça, ele enfatiza qual o nosso estado, a saber, morte espiritual. Não qualquer morte, mas sim mortos em DELITOS e PECADOS. Paulo está deixando claro qual nosso estado antes de sermos regenerados, antes de sermos impactados pela maravilhosa Graça proveniente de Deus. A  fim de nos  tornarmos vivos,  saindo da morte  no  pecado,  devemos  nascer  dos  céus  pelo  Espírito  de  Deus,  através  da  lavagem pela Palavra de Deus (João 3:5; 1 Coríntios 6:11; Efésios 5:26).

A única questão espiritual que nos foi passado “hereditariamente” (deixo isso claro, pois não existem maldições hereditárias) foi a natureza caída, a natureza pecaminosa.  Adão e Eva foram criados perfeitos, mas Deus avisou que no dia que eles comessem, eles certamente morreriam (Gn 2:16,17). Eles desobedeceram e dessa forma dois estados de morte entraram no mundo: o primeiro estado é o de morte Espíritual, uma vez que Adão se afastou de Deus e a relação de amor, que antes era existente, passou a ser uma relação de medo (Adão se escondeu de Deus por medo. Medo de quê? Adão sabia a conseqüência da desobediência Gn 3:9,10). Adão era o representante Federal da raça humana, sua queda foi a representação do futuro de todos os homens. O pecado de Adão penalizou todos os homens.

Paulo explica aos romanos  como  isso  aconteceu.  “Portanto,  assim  como por um  só homem  entrou o  pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a  todos  os  homens,  porque  todos  pecaram...”  (Romanos  5:12).  Pode-se  comparar o pecado de Adão para a raça humana a como alguém colocando  veneno em um recipiente de água pura. Daquele momento em diante,  toda  porção  da  água  se  tornou  venenosa  de  forma  que  é  impossível  obter  até  mesmo uma pequena porção de água pura do recipiente. Similarmente, o ato  singular  do  pecado  de Adão  poluiu  a  corrente  sangüínea  da  raça  humana  com o pecado desde o momento da concepção.

Essa  verdade  fica  evidente  através  das  Escrituras.  O  rei  Davi confessou  a Deus  após  ser  confrontado  pelo  seu  adultério  dizendo,  “Eu nasci na  iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe”  (Salmos 51:5). Sua  natureza  pecaminosa  vinha  do  que  ele  era  e  havia  sido  desde  o nascimento.  Davi  também  expressa  isso  no  Salmo  58  “Desviam-se  os ímpios desde  a  sua  concepção; nascem  e  já  se desencaminham, proferindo mentiras. Uma vez que o homem nasce em pecado, poderia ele ter um “livre-arbítrio” para escolher servir a Deus? Um pouco de razão nos ajuda a compreender as implicações disso. Se o homem possui livre-arbítrio, ele não precisa do Espírito Santo! Se Ele precisa do Espírito Santo, mas pode resiti-lo quando o Espírito Santo quer salvar... então o Espírito Santo foi impedido! E sabendo que o Espírito Santo é o próprio Deus, como explicar o texto de Sl 33: 10,11? Se o Espírito Santo foi impedido pela vontade de homens, então Ele [Espírito Santo] continuaria sendo soberano?

Escravos do pecado

Nós nascemos debaixo do jugo do pecado e é fato que temos pensamentos e ações típicas de nossa natureza pecaminosa. Aos olhos de Deus, até mesmo nossas mais perfeitas atitudes, são trapos de imundícia, não tendo qualquer valor. Com isso não quero dizer que o homem seja incapaz de fazer obras moralmente boas, mas sim que ele é incapaz de se purificar dos seus pecados mediante suas boas obras. No cristianismo as boas obras são consideradas resultados de uma vida que foi impactada pela Graça e não a representação de uma auto-salvação.

Qualquer boa obra que fazemos é, na realidade, obra pecaminosa  perante Deus a menos que nós as façamos com a correta motivação de  darmos glória a Deus e não ao nosso próprio orgulho. Como Isaías diz  “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como  trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades, como um vento, nos arrebatam” (Isaías 64:6). Deus está dizendo que nossas boas obras são como trapos manchados pela sujeira da  menstruação de uma mulher. O Catecismo de Heidelberg dá uma boa  definição para “boas obras”: Somente aquelas que são feitas através da verdadeira fé, de acordo com a lei de Deus e para a Sua glória” (Resposta  91). Edwin Palmer explica isso dizendo “De acordo com o Catecismo, três elementos são necessários para se fazer verdadeiras boas obras: fé verdadeira, obediência à lei de Deus e motivo apropriado. Uma obra relativamente boa, por outro lado, pode ter a correta aparência externa, mas  não ser executada através de fé verdadeira ou para a glória de Deus. Assim, não-cristãos podem executar ações relativamente boas, apesar de eles  mesmos estarem totalmente em depravação”.

O texto de Paulo aos efésios tem por objetivo nos lembrar que somos pecadores salvos pela Graça e que pela Graça deixamos de andar no curso desse mundo, iniciamos um processo de “remar contra a maré” .

Objeto da ira de Deus

Existe um evangelismo de pára-choque de caminhão que ensina que “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador”. Tal frase é tão repetida, que chegamos ao ápice de imaginar que tal texto faça parte das Escrituras Sagradas, no entanto a Bíblia nos ensina que Deus odeia o pecado e também odeia o homem que pratica o pecado (Sl 5:5).

Vejo-me obrigado a remar contra a maré da maioria dos estudiosos das Escrituras e fazer uma afirmação que muitos não irão concordar, mas faço-a com base nas Escrituras. Deus ama a uns e odeia a outros (Rm 9:13) . Você se assustou com isso? Se você se assustou, talvez seja porque, inconscientemente, você acredita que deva ser amado por Deus por algo que exista em você, ainda que você não assuma tal coisa. Sinto-me satisfeito em saber que em mim não existe bem algum, mas que Deus me amou a ponto de me salvar, e sei que Ele me guardará até o último dia. Não temo a morte e não temo meu destino Eterno.... Como é glorioso ter convicção do futuro, minha alma se enche de gratidão.
O inferno é o lugar para o qual todas as pessoas iriam caso
Deus não manifestasse sua Graça mediante o
sacrifício de seu próprio Filho
Tenho convicção de que tudo que eu merecia era o fogo do inferno e me alegro porque fui alcançado pela maravilhosa Graça do meu Redentor. A ira de Deus é contra nós  até mesmo  pela  nossa  natureza  pecaminosa.  Pois  tudo  deve  ser  feito para  a  Sua  glória  somente.  Desde  o  nascimento  nós  falamos  mentiras  e procuramos  somente  o  nosso  bem-estar. A Escritura  nos  diz  que  “se,  de fato, é justo para com Deus ... quando do céu se manifestar o Senhor Jesus com os anjos do seu poder, em chama de fogo, tomando vingança contra os que não conhecem a Deus e contra os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos  da face do Senhor e da glória do seu poder, quando vier para ser glorificado  nos  seus  santos  e  ser  admirado  em  todos  os  que  creram,  naquele  dia (porquanto  foi  crido  entre  vós  o  nosso  testemunho)”  (2  Tessalonicenses 1:6-10).

Universalidade do pecado

Quando Paulo decide falar acerca de nossa condição espiritual, ele utiliza-se do texto de Sl 14 e 53.

“Como está escrito: Não  há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque a Deus.” (Rm 3:10-11)

Essa citação aponta para o fato de que não somos salvos por nossa  justiça, uma vez que não possuímos uma justiça digna de reconhecimento. Ninguém entende o que é bom por si mesmo e homem algum pode adorar a Deus por sua livre e espontânea vontade (livre arbítrio). A adoração a Deus só é executada genuinamente quando inspirada, impulsionada pelo Espírito Santo.
Todos são pecadores e necessitam da Graça de Deus já que ninguém é justo... o pecado está presente na vida de todos os homens. Por um homem entrou o pecado no mundo (Rm 5:19) e passou a toda espécie humana.

A incapacidade do  homem de se arrepender e crer

A doutrina arminiana traz em seu escopo sérios “problemas” teológicos. Enquanto eles consideram o calvinismo como heresia por, nas palavras deles, transformar Deus em “alguém” que odeia o homem de graça (o que é uma mentira, pois Deus odeia o pecado e o pecador. O que isso significa? Que o ódio de Deus está voltado contra a natureza pecaminosa). Afirmam que diminuímos a responsabilidade do homem, mas qual é melhor? Reduzir o homem ou Reduzir a Soberania de Deus? Eu me questiono “Se Deus quer salvar a todos, por que não salva?”, a Bíblia não diz que Deus faz tudo o que Ele QUER? Se o homem tem o poder de impedir a Deus (na vontade de salvar), então como posso proclamar que “Os planos de Deus não podem ser frustrados”? isso é no mínimo um paradoxo, paradoxo que para ser respondido utilizam um “malabarismo” teológico dividindo a vontade de Deus em “absoluta” e “permissiva”, mas onde a Bíblia ensina isso? Dedução? Mas a dedução não pode ser apenas uma  interpretação particular que pode estar certa ou não?

O homem natural odeia o Pão da Vida.
Onde quero chegar com todas essas afirmações de confronto à teologia soteriológica arminiana? Não tenho medo de dizer que o homem odeia a Deus e sua mente finita jamais o compreenderá por suas próprias forças. Para que o homem venha a amar a Deus faz-se necessário a execução do maior milagre que pode ocorrer, a saber, a regeneração do coração humano. Ninguém, naturalmente, conseguirá seguir a Cristo. Os únicos que se converterão e seguirão a Cristo são aqueles que foram, de antemão, separados para tal fim... somente aqueles que O Pai deu ao Filho é que serão salvos (Jo 6:44 e 6::65). Todas as pessoas estão atadas ao pecado. A  vontade  é  livre  para  escolher  o  que  acha melhor, mas  o  que  ela naturalmente pensa como melhor é não buscar ou escolher Deus. O homem  natural não quer se submeter e servir a Deus. Ele rejeita a soberania de Deus em  sua  vida.  Ele  pensa  que  a  felicidade  da  satisfação  na  vida  não  é encontrada na justiça de Deus. Apesar da vontade do homem ser livre para escolher “Provai e vede que o SENHOR é bom” (Salmos 34:8), ele “odeia” o gosto do “pão vivo que desceu do céu” (João 6:51). O homem natural ao experimentar o “gosto” do pão vivo que desceu do céu, ele imediatamente pedirá para comer carne. A carne o agrada mais.

É por conhecer minha natureza pecaminosa, é que sou levado a acreditar que Deus não ajuda o homem a se salvar, Ele salva o homem. Não tento diminuir a soberania de Deus para “me responsabilizar”. Sei quais são minhas responsabilidades e sei que Deus me guardará até o último dia. Cristo um dia quebrou as cadeias do pecado que me prendiam, regenerou-me e a morte espiritual no qual eu vivia, fruto da depravação, foi suprimida pela Graça que encheu o meu ser. Tudo que quero demonstrar é que se Deus salva o homem, salva porque Quer e não porque mereça. Se não existisse Eleição, você tem idéia do que aconteceria? Estaríamos todos caminhando e por odiar a Deus, todos, sem exceção, estariam caminhando para o inferno. O coração do homem é tão depravado, que se Deus abrisse as portas do inferno e dissesse aos perdidos “Se vocês se ajoelharem perante mim, eu retiro vocês do inferno” , tenho certeza que os condenados diriam “Preferimos ficar no inferno”. Você achou esse exemplo pesado? Mas é a verdade ! Note que em Apocalipse (16:9) está registrado que apesar de Deus poder parar as pragas e poder livrar os homens do sofrimento da Grande Tribulação, os homens pecadores, ainda assim  blasfemavam. Esse é o perfeito retrato do coração pecaminoso do homem.

Espero ter me feito entender, qualquer dúvida, deixe seu comentário. Próxima parte da série “Soteriologia Reformada” será “Eleição Incondicional”. 

“Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a  glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!” (Efésios 3:20, 21)

Soli Deo Gloria


Artigo publicado originalmente no blog Pelas Escrituras no dia 08/12/10





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