quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Spurgeon: O Outro Peregrino


Allán Roman*


A neve caia enquanto o vento vindo do oceano uivava e cortava as pedras como uma espada afiada. Há poucos ventos que sejam tão frios quanto os que se originam na Inglaterra no mês de Janeiro, vindos do Mar do Norte. Inclinando sua cabeça, buscando proteger-se do clima hostil, um frágil adolescente tentava dificultosamente prosseguir o seu caminho. Queria chegar logo ao seu destino naquele domingo. Era cedo. 

O que motivaria um rapazinho da época vitoriana, de apenas quinze anos de idade, à sair num dia como aquele? Definitivamente não podia haver nada que fosse suficientemente atrativo em Colchester, Essex, para que enfrentasse com coragem uma tempestade assim em algum dia de semana, muito menos, em um domingo, destinado ao descanso.

O jovem se deteve e contemplou a neve girando na rua. O frio era extremo. A igreja a qual pretendia dirigir-se ainda estava muito distante. Nesse momento lembrou-se que sua mãe havia comentado acerca de uma pequena igreja localizada na antiga rua Artillery, cerca de quatro passos adiante. Pensou: a igreja que pretendo ir ainda está a uma distância considerável; portanto, vou ir para a capela que minha mãe havia falado.

Uma igreja?! Estava indo a uma igreja?! Um adolescente normal caninhava em meio a uma tempestade de neve e batalhava contra o vento cortante para ir a uma igreja num horripilante dia de Janeiro? Certamente há toda uma história por detrás de tudo isso! E realmente... Há!

Charles, pois esse era seu nome, havia decidido que visitaria cada uma das igrejas da cidade em que vivia - Colchester, uma pequena comunidade à uns setenta quilômetros ao noroeste de Londres, no condado de Essex. Ele desejava encontrar a resposta que buscava. Tinha que encontrar a resposta. Esclarecemos que na Inglaterra de 1850, um adolescente de Essex ir na igreja, não era surpreendente. Em 1850, os ingleses vitorianos eram notadamente religiosos. Os historiadores estão de acordo em que a religião permeava cada estrato da sociedade. Mas visitar cada uma das igrejas da cidade, especialmente se envolvia sair num dia como aquele, não era normal, mesmo para os ingleses vitorianos.

Qual resposta Charles buscava?

Tudo começou alguns anos antes, quando o menino Charles entrou num quarto do andar superior da casa de seu avô paterno, que era um pastor protestante - pregador congregacional. Nesse humilde quarto, o menino descobriu uma cópia de O Peregrino, de João Bunyan; folheou-o, e esse clássico ascendeu nele uma centelha de preocupação. Este livro pôs um novo peregrino no caminho.

Como o personagem de Bunyan, Cristão, Charles esforçava-se para abandonar a Cidade da Destruição e alcançar a salvação. A resposta que procurava encontrava-se na sua conversão a Cristo. Ele havia fixado sua visão na Cidade Celestial, e não desistiria.

Mas apesar de buscar a salvação por todos os meios, não encontrava a paz da redenção. Não obstante, carregava um fardo pesado em seus ombros. Tinha que encontrar o perdão e o descanso. Suas leituras dos “puritanos” haviam engendrado, a culpa, a angustia e a miséria em sua alma. Queria desvencilhar-se do fardo e depositá-lo no “sepulcro aberto”. Tinha uma esperança firme. Sua herança puritana havia lhe ensinado isso. Pensava com esperança: “Certamente algum bom pregador me dirá como ser salvo, e como remover esta culpa e este sentimento de pecado.”

Foram nessas circunstâncias que recordou que sua mãe lhe havia pedido que fosse à igreja metodista localizada em Artillery Street. Sua mãe havia orado com muita frequência pela conversão dos seus filhos. Charles cita-nos uma de suas orações: “Recordo que em certa ocasião, minha mãe orou assim: 'Se agora, Senhor, meus filhos permanecerem no seu pecado, não será devido a ignorância que perecerão; e minha alma dará um decidido testemunho contra eles no juízo, se não agarrarem-se a Cristo.' Essa ideia transpassou minha consciência e sacudiu meu coração”.

Entrou na igreja onde se encontravam somente umas quinze pessoas. Sentou-se ás umas cinco ou seis cadeiras da entrada. Inclinou sua cabeça, nem tanto pelo frio da tempestade, senão por causa do miserável fardo de seu coração. Como era de se esperar, o pastor não pode estar naquele dia; assim que um membro qualquer da congregação, um homem alto e magro, ocupou o púlpito e leu Isaías 45.22 Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não outro.

Charles nos diz que este indivíduo revelava uma completa falta de educação. Era tosco em seu discurso, quase insuportável para alguém que possuía ouvidos refinados para a poesia. Nem sequer conseguia pronunciar corretamente as palavras. Aos seus quinze anos, Charles era sofisticado intelectualmente. Mas subitamente, de maneira inesperada, aconteceu! A luz brilhou ao derredor! Parecia que o próprio céu havia decido. A salvação de Cristo brilhou em toda a sua plenitude.


Nessa pequena capela metodista primitiva, e com a pregação de um homem sem educação, começou uma peregrinação ministerial que nenhum dos presentes poderia sonhar nem com a mais descabelada imaginação.


Quatro anos mais tarde, na idade de 19 anos, Charles Spurgeon recebeu o convite para ser o pastor da histórica Capela de New Park Street, na cidade de Londres. Notáveis cristãos como Jonh Gill, Benjamin Keach e Jonh Rippon haviam servido como ministros dessa famosa congregação. Durante 37 anos Spurgeon pregou ali, reunindo a maior igreja evangélica do mundo até então.


Através dos anos, os elevados elogios em honra do jovem pregador são quase inacreditáveis. Davenport Northrop, um contemporâneo de Spurgeon chamou-lhe de “o más célebre pregador de todos os tempos modernos... a figura mais ilustre do mundo religioso... Saul em meio aos profetas, de ombros é mais alto do que qualquer um dentre o povo.”

O Teólogo e professor alemão, Helmuti Thielicke, declarou: “vendam toda a literatura cristã que possuírem (incluindo a literatura atual) e comprem Spurgeon, mesmo que tenham de buscá-los em livrarias de segunda mão. Deixem que ele seja para vocês um Sócrates, que lhes ajude a encontrar seu próprio caminho.” Andrew Blackwood perguntou: “Quem desde Paulo tem trabalhado tanto para o avanço do Reino de Deus?” Phant e Pison afirmaram: “o estilo oratório de Spurgeon foi o melhor jamais produzido pelo púlpito cristão.” B. H. Carroll, educador batista, mencionou que Spurgeon se destaca como o maior pregador de toda a história da Igreja Cristã. Ele chamou Spurgeon de “o maior homem dos tempos modernos”.

A razão pela qual Spurgeon atraiu tantos elogios é compreensível. A simples montanha de textos que produziu em seus anos em Londres foi assombrosa. Durante quase quatro décadas de ministério, Charles agregou quase 14.000 novos membros em sua igreja. No momento de sua morte em 1892, já haviam sido publicados 2.241 sermões. Depois disso, publicou-se um sermão por semana até 1917, que somam um total de 3.561 sermões. Durante algum tempo, os sermões de Spurgeon eram enviados via telégrafo aos Estados Unidos e eram impressos em jornais seculares nas edições de segunda-feira. Muitos consideram Spurgeon um dos 10 maiores autores ingleses, com cerca de 300 milhões de cópias de sermões e livros impressos. Seus livros vivem hoje.

Alguém poderia explicar essa popularidade argumentando que os ingleses vitorianos eram religiosos ao extremo. Eram conhecidos como uma nação que “gostava de pregações”, e Spurgeon se converteu em seu tempo, no príncipe dos pregadores. Multidões vieram escutá-lo. Também liam com avidez os seus sermões. Era natural argumentar que seus heróis eram religiosos.

Mas o orador londrino tornou-se muito mais do que um mero fenômeno sociológico. O que Spurgeon possuía? O que era esse “algo a mais” que cativou o seu tempo? A resposta é simples, porém muito profunda: Charles Spurgeon cumpriu o papel de um cristão genuíno, um verdadeiro homem de Deus, envolvido em outra peregrinação no contexto de um avivamento espiritual genuíno. Um avivamento surgiu ao redor de Spurgeon pouco tempo depois de ter começado seu ministério em Londres.

Nas palavras de Spurgeon: “temos sentido em nossas almas, não que talvez possamos ter um avivamento, mas que devemos tê-lo. Devemos nos aproximar do Anjo do Pacto e lutar renovadamente com a determinação de que não permitiremos que se vá, a menos que nos abençoe.”

O “Anjo do Pacto” não decepcionou o pregador, pois durante quase quarenta anos, as bençãos do avivamento fluíram e alimentaram em seu ministério. Isto torna-se mais e mais evidente enquanto caminhamos com este “peregrino” do século XIX, rumo à “Cidade Celestial”.

Prerrequisitos de um Avivamento

Vamos tocar brevemente num tema muito importante, que é “o avivamento”, que de maneira tão significativa se encontrou presente no ministério singular de Spurgeon. Que tipo de servo de Cristo é exigido como pastor de uma igreja grande e crescente, que experimenta um significativo avivamento espiritual? As respostas são varias:

1) De modo fundamental, um bem sucedido servo do Evangelho tem que ser um ministro pleno do Espírito Santo. Spurgeon exemplificou suficientemente o significado “para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus (Ef 3.19)

Spurgeon experimentou a plenitude do Espírito de forma profunda. Contudo, igual a muitos homens espirituais bem sucedidos, tinha muitos críticos. Apesar disso, Spurgeon pregava com grande poder espiritual. Houve muitas conversões entre aqueles que o escutaram. Era um homem “poderoso com Deus”.

2) Um espírito livre, desprovido do peso da tradição, constitui outro prerrequisito para ser útil. Spurgeon não podia ser sujeitado pela rígida sociedade Vitoriana de seu tempo. Tornou-se em um extraordinário inovador de primeira magnitude. A pregação que fluiu do seu púlpito gerou uma revolução. Foi criticado pelos londrinos da alta sociedade como vulgar e cruel, mas seu afiado estilo anglo saxônico intrigava e cativava o povo comum, de tal maneira que milhares iam para escutar sua simples oratória. O próprio Spurgeon alegrava-se pela sua simples pregação vulgar. Dizia: Se eu fui salvo por um Evangelho simples, sou obrigado a pregar esse mesmo Evangelho simples até que eu morra, para que todos sejam salvos por ele. Quando cessar de pregar a salvação pela em Jesus, ponham-me num manicômio, pois podem ter certeza que eu perdi a razão.

Todas as suas obras falam a esse respeito. Os carentes sentiam que finalmente haviam encontrado um espírito livre que guiaria os membros da igreja a fazer o que fosse necessário para satisfazer as peremptórias necessidades dos pobres. Spurgeon, como um pássaro libertado subitamente da sua gaiola, voou com uma mensagem de fascinante liberdade e frescor, que levou esperança em suas asas para os problemas sociais e espirituais de Londres e do mundo. E a gente comum o escutava com gosto.

3) Alem do mais, um bem sucedido ministro de Jesus Cristo deve ser um bom pensador, um pensador disciplinado. Spurgeon poderia pensar? Ele nunca recebeu uma educação teológica formal. O criticaram muito por isso. Alguns críticos lhe qualificaram como tedioso e outros de estúpido. Spurgeon tinha planos de estudar em um instituto teológico, mas as circunstâncias conspiraram contra ele. Contudo, estava muito longe da mediocridade mental. Possuía um intelecto brilhante. Toda sua carreira como pregador provou isto. Era um leitor ávido e possuía uma memória fotográfica. Podia classificar em sua mente tudo que lia; e possuía um dom incomum para recordar imediatamente o que precisava. Acumulou milhares de livros e a maioria era pesados volumes teológicos. Seus comentários e observações ás margens nos falam de como prodigiosamente os lia. Era um pensador e estudioso extremamente capaz.

4) Um ministro também deve ser humano. Spurgeon respondia essa exigência. Amava as pessoas e seu senso de humor era contagioso e notório. Por exemplo, durante uma eleição parlamentar geral, Spurgeon veio muito tarde para um compromisso no qual ele deveria falar. Explicando seu atraso, explicou que tinha parado para votar.

“Votar?! Mas meu querido irmão, eu pensei que você era um cidadão da Nova Jerusalém?!” - perguntou um crítico extremamente piedoso.

“Eu sou – respondeu Spurgeon, mas meu 'velho homem' é um cidadão deste mundo;”

“Ah! Mas você deveria mortificar seu 'velho homem'” - replicou o crítico.

“Isso é exatamente o que sou - argumentou Spurgeon -, pois meu 'velho homem' é um membro do do Partido Conservador e eu me forcei a votar a favor dos Liberais” E assim encerrou o encontro.

Spurgeon recebeu críticas consideráveis por injetar uma boa dose de humor em seus sermões. Defendia-se dizendo: “Se vocês soubessem tudo o que guardo, tudo o que não digo, vocês não me criticariam.” Um detalhe interessante do seu senso de humor nos é mostrada na forma que ele preencheu uma solicitação de seguro de vida: no questionário médico uma das perguntas era: Tem convulsões desde a infância? A resposta de Spurgeon foi: “não, a menos que se refiram a convulsões de risada.”

Não obstante, Spurgeon tinha seu lado profundamente sério. Frequentemente sofria de depressão, como se verá durante o desenrolar de sua peregrinação: sofria de gota reumática, entre outras coisas; mesmo em suas pregações, eram situações que o deixavam muito tenso. Os diáconos tinham que vir e orar por ele. Comentava: “Cada vez que tenho que pregar me sinto terrivelmente enfermo, literalmente enfermo, e me sinto como se estivesse cruzando o Canal da Mancha.”

5) O ministro que anseia ser poderoso diante Deus deve sentir a paixão de anunciar ao povo a em Cristo. A verdadeira fé. A fé salvadora. E nisto Spurgeon era notável. Seu ministério evangelístico era poderoso e tão profundamente apreciado como seu ministério pastoral, sua pregação e suas obras sociais. Pregava em campos e estádios, em teatros, ao ar livre e em qualquer e em qualquer lugar que se reunisse o povo. Se papel de pastor evangelista foi o que destacou seu ministério. O próprio Spurgeon dizia: “não posso estar contente nem sequer cinco minutos, senão estou tratando de fazer algo por Cristo” Também dizia: “Eu prefiro ser o instrumento de salvação de uma alma, do que ser o maior orador da Terra.” Transmitia essa paixão aos outros. Em 1867 o Tabernáculo Metropolitano contava com 250 membros, todos envolvidos na obra evangelística.

Mais ainda, Spurgeon se deu conta de que se Londres devia ser conquistada para Cristo, o evangelismo deveria concentrar-se em plantar novas igrejas. Neste trabalho Charles alcançou a excelência. Sabia que uma paixão pelas almas devia resultar resultar em uma obra sensivelmente prática, como iniciar novas congregações. Comentava: “Quando vocês lamentam-se pela desigualdade do mundo, chorar não produzirá nada se o choro não for acompanhado pela ação”. Como resultado disso, já em 1878, quarenta e oito novas igrejas haviam sido estabelecidas sob sua supervisão, somente na área metropolitana de Londres. As conversões foram inumeráveis.

6) Além do mais, para alguém ser usado no avivamento, a oração e a tribulação são essenciais. A tribulação parece sempre ter um papel vital na preparação de um servo de Deus para que exerça um grande serviço , por parte do Espírito Santo. As provas que Spurgeon suportou são lendárias. Através de toda a sua vida experimentou provas o levaram ao desespero, e graças a elas, pôs-se de joelhos. Mas o desespero sempre inspira a oração. Felizmente, Spurgeon herdou uma igreja que orava constantemente. Ele sabia e afirmava: “as reuniões de oração são a máquina propulsora da igreja.” Como orava a sua congregação! Eles oraram para que se desse um avivamento. Mas a oração deve ser tanto pessoal quanto coletiva. Como orava Spurgeon. Parecia orar em um espírito de oração contínua. Não era dado a orações formais, mas orava sem cessar. Podia passar imediatamente de uma conversa com um amigo à uma oração.

7) Sobre tudo, um homem de Deus, para ser usado significativamente por Deus, deve ser simplesmente isso: um homem de Deus. Spurgeon tinha muitos dons incomuns. Uma mente brilhante e uma personalidade cativante. Possuía uma voz maravilhosa e seu dom natural para a oratória surpreendia as multidões que foram escutá-lo. Podia organizar seu trabalho de forma assombrosa, mas acima de tudo, amava a Jesus Cristo de todo o coração. Dízia: “preferia ser santo a ser feliz, se ambas as coisas estivessem dissociadas.” Spurgeon tinha um propósito e uma meta: exaltar ao seu Salvador com uma vida piedosa e uma pregação do Evangelho com poder.

Resumindo, Spurgeon, levantado pelo avivamento do Espírito Santo, iniciou uma peregrinação que daria a Inglaterra e ao mundo um dos maiores ministérios pastorais, evangelísticos e sociais. O homem chamado Cristão havia deixado o mundo pronto para o descobrir.

Apresentar um registro cronológico rígido da peregrinação de Charles Haddon Spurgeon, seria muito difícil e de pouco proveito. É preciso entender a dinâmica do seu ministério Portanto essa apresentação será tanto tópica quanto cronológica, mas seguiremos uma ordem geral de eventos. Além do mais, para compreender qualquer personalidade, deve-se entender o tempo e o lugar em que essa pessoa viveu. Portanto daremos primeiro uma visita a Londres vitoriana.


* Allán Roman é pastor batista reformado, formado em Teologia pelo Spurgeon College, Londres, e com pós-graduação no London Bible College, autor do livro "Otro Peregrino", do qual este texto foi retirado, e de centenas de sermões de C.H. Spurgeon para o espanhol.

Tradução: Fabio Farias

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