O que a jovem de hijab viu? E o que ela não viu?

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O que a jovem de hijab viu? E o que ela não viu?




Carl. R. Truman

Algumas vezes tive a honra de estar próximo a jovens usuárias do  hijab. Contudo, normalmente isso ocorre em salas de embarque de aeroportos ou em plataformas de estações ferroviárias. Isto nunca havia ocorrido durante um serviço de culto, pelo menos não até recentemente.

Na última sexta-feira de junho, estive em Cambridge com meu filho mais novo e decidi expô-lo a  um dos maiores prazeres da minha vida: Ouvir o Coral Evensong na Capela Real. Nós, de forma respeitosa, entramos na fila, debaixo da chuva e quando a Capela foi aberta, tomamos nossos lugares na extremidade de um dos corredores. Foi neste momento que percebi que a jovem sentada ao meu lado direito usava um hijab. Era estranha aquela imagem contraposta… de um lado um Presbiteriano Ortodoxo de meia-idade e do lado havia uma muçulmana de 20 e poucos anos esperando o início do serviço de liturgia anglicana. Presumo que - assim como eu - ela estava ali pelas questões estéticas, não pelas questões religiosas. Se por um lado o coro é famoso, a pregação era, pelo menos nos meus tempos de estudante, na melhor das hipóteses, infame. Os sermões eram pesadelos Scheleimarcherianos ao estilo “reflexões acerca de uma religião auto-consciente e irremediavelmente irreverente”. Talvez os sermões tenham melhorado nas últimas décadas, no entanto como não sou pós-milenista, nem mesmo remotamente, não consigo crer que seja esse o caso.

Uma vez que o Coro adentrou o recinto e tomou seus lugares, o serviço de culto teve início. Por toda a hora seguinte, o sardônico Presbiteriano e o atrativo hijabi sentou-se, levantou-se e ajoelhou-se com a congregação, seguindo às instruções constantes do Livro de Oração Comum. A liturgia havia sido mudada a fim de se enquadrar na celebração daquele dia festivo (como bom Presbiteriano, não me lembro qual a data do calendário litúrgico). O canto que era era entoado pela Congregação juntamente com o Coral era bonito e a elegância séria da liturgia de Cranmer parecia encontrar seu contexto acústico perfeito no equilibrio perpendicular daquela capela de estilo gótico. Por fim, saíram em silêncio sendo que ao mero nível estético, aquele era, sem dúvida, um dos grandes coros masculinos cantando palavras de profunda piedade e paixão.  Do lado de fora da Capela, a chuva continuava. Eu e meu filho deixamos a jovem de hijab conversando em seu telefone e fomos juntos para Don Pasquale, um dos meus lugares prediletos dos meus tempos de estudante. Na verdade, tratava-se do local indicado para aqueles que gostariam de parecer sofisticados, mas que na verdade eram pobres solteiros sem muito dinheiro. É o prudente equilíbrio de bom custo e benefício.

Sentados em Don Pasquale, eu e meu filho nos perguntávamos acerca do que havíamos acabado de presenciar. O que significava tudo aquilo para aquela jovem de hijab? Culturalmente não era um ambiente totalmente estranho. Ela era uma muçulmana de origem espanhola e, com exceção do hijab, estava vestida de forma casual, tal como qualquer garota do ocidente. Assim, creio que o estilo e os sons de uma igreja cristã não tenham sido tão estranhos para ela. Contudo, ela ainda era uma muçulmana. O ambiente de culto em si já deveria ter sido como um território estrangeiro.

Passei então a me questionar: o que aquela jovem testemunhou? Bem, em um nível geral ela tinha ouvido o idioma inglês de um modo belíssimo e bem delineado com um sublime propósito de louvar ao Deus Todo-Poderoso. Ela também viu um serviço de culto com uma clara lógica bíblica, que se movia da confissão dos pecados e perdão, seguindo para o louvor e à oração. Essa mesma lógica foi explicada pelo ministro que presidia a liturgia enquanto este lia as explicações constantes no “manual de culto”. A tragédia humana e o caminho da salvação foram claramente explicados e dramatizados pelo dinâmico movimento da liturgia. Tudo isto foi testemunhado em um ambiente cercado de uma atmosfera calma e reverente.

Em termos de detalhes, mais específicos, ela terá ouvido dois capítulos completos da Bíblia, sendo um do Antigo Testamento e um do Novo Testamento. Não necessariamente todo o conselho de Deus, mas uma porção muito justa. Ela terá sido guiada na confissão dos seus pecados. Terá ouvido o ministro pronunciar as palavras de perdão emanadas das Escrituras. Terá sido guiada na oração em consonância com aquela oração ensinada pelo próprio Senhor. Ela terá ouvido dois salmos completos serem entoados pelo Coro, bem como lhe será oportunizado cantar alguns hinos a partir de toda a riqueza do hinário tradicional e terá contato com uma boa dose das Escrituras. Ela terá sido convidada a recitar o Credo dos apóstolos (e agora está muito mais próxima de ser exposta a todo o conselho de Deus). Terá escutado as orações fundadas nas preocupações intercessoras das Escrituras em prol do mundo real. Conforme anteriormente dito, tudo isto no elevado estilo e bela prosa inglesa de Thomas Cranmer.

Como um velho puritano no que tange à liturgia, eu questiono: Será que isso não leva ao formalismo e a sufocar a religião no coração? Certamente eu pensava assim há uns quinze ou vinte anos atrás, no entanto, quando me lembro deste culto e do que aquela mulher com hijab testemunhou, não posso fazer outra coisa senão me questionar se ela teria experimentado algo melhor se tivesse ido a uma outra igreja de tradição protestante…

Dois capítulos inteiros sendo lidos? um capítulo inteiro do Novo Testamento já parece testar a paciência de muitos. Dois Salmos cantados ( e que faz parte de um calendário litúrgico que passa por todo o Saltério)? Certamente é um pouco demasiado, antiquado, irrelevante e, muitas vezes, deprimente para aqueles que querem ir à igreja para um pouco de impulso emocional. A estrutura para o culto é determinada pela relação entre a verdade teológica e necessidade existencial biblicamente definida?  Talvez isso soe como algo vulnerável e que possa cair em um formalismo esteriotipado. A linguagem usada para louvar a Deus é enfaticamente diferente daquela usada por mim para que comunicar com outra pessoas em meu cotidiano? ao abordar crianças, carteiro ou mesmo o meu cão? Creio que o adjetivo moderno é “inautêntica”.

No entanto, aqui está a ironia: nesta capela anglicana de linha liberal, a jovem de hijabi experimentou um longo serviço de culto no qual a maior parte do tempo foi gasto com palavras diretamente das Escrituras. Ela ouviu mais da Bíblia, cantou-a mais e orou mais que em qualquer igreja evangélica protestante que eu conheça… do que qualquer igreja, em outras palavras, que afirma levar a palavra de Deus a sério e colocá-lo no centro de sua vida. Sim! provavelmente foi uma boa coisa o fato de não ter havido um sermão naquele dia. Estou confiante de que, como disse Carlyle, caso houvesse um sermão poderíamos ter testemunhado um sacerdote abrindo furos em toda a estrutura da Igreja da Inglaterra. Pondo isto de lado, a liturgia de Cranmer fez com que esta menina fosse exposta ao cristianismo bíblico de uma forma notavelmente bela, escriturística e reverente. Eu estou certo de que o protestantismo evangélico deve fazer melhor neste ponto do que tem feito. Diante de todo o meu sarcasmo instintivo acerca do anglicanismo e formalismo, me foi mostrado de uma maneira poderosa sobre como estamos longe de levarmos a Palavra de Deus a sério em nossa adoração.

Claro que além do sermão, houve outras coisas que a jovem de hijab não testemunhou. Ela não viu nenhum adulto se comportando infantilmente, não testemunhou ninguém dizer algo estúpido, não presenciou qualquer rotina semelhante a uma comédia stand-up ou qualquer gracejo casual diante de Deus;  ela não viu nenhum “quarentão” fingindo ser alguém legal; em síntese, ela não presenciou qualquer coisa que me fizesse, como cristão, me encolher com embaraço pela minha fé ou por aquilo em que minha fé é transformada muitas vezes nas mãos de evangelistas evangélicos.



Carl Trumam é ministro da Igreja Presbiteriana Ortodoxa (OPC).

Tradução: Renan Almeida
Revisão: Fabio Farias

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